domingo, 17 de agosto de 2014

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Felizes aqueles que ouvem a
Palavra de Deus e a guardam!” (Lc 11,28).


          Celebramos no Vigésimo Domingo do Tempo Comum uma das festas mais populares e consoladoras dedicadas à Virgem Maria: Assunção de Nossa Senhora!
          Cantamos as maravilhas que Deus realizou em Maria, exaltada acima dos anjos na glória junto a seu Filho Jesus. A páscoa de Cristo se realiza nos corações e comunidades que, a exemplo de Maria, se abrem à palavra de Deus e formam família com o Ressuscitado.
          Elevada ao céu, Maria intercede por nós e nos espera para que desfrutemos de sua companhia. Celebramos em comunhão com os vocacionados à vida consagrada: religiosos e consagrados seculares, que a exemplo de Maria, dão seu sim generoso ao projeto de Jesus.
          Mulher revestida de honras e glórias, Maria reconhece, agradecida, as maravilhas que Deus nela realizou em favor do povo. Ela é o grande sinal da nova humanidade redimida pelo seu Filho.
          Maria assunta ao céu é sinal da vida do povo grávido de Deus que aguarda a revelação da glória. Em Maria, humilde serva do Senhor, Deus tem espaço para operar maravilhas. A vitória de Cristo sobre a morte é símbolo também de nossa vitória.
          Maria já participa do banquete do reino com seu Filho. Quanto a nós, na eucaristia nos é concedido antecipar a alegria que o Pai reserva a todos os que são fiéis a Jesus (cf. Liturgia Diária de Agosto de 2014 da Paulus, pp. 61-66).
          É a partir da gloriosa vitória da Páscoa sobre o pecado e a morte que nós contemplamos Maria toda gloriosa no céu. Vemos como o próprio Evangelho coloca na sua boca palavras que proclamam a beleza de Deus que, na vitória de Jesus, ‘realizou uma tríplice inversão das falsas situações humanas, para restaurar a humanidade na salvação, obra de Cristo:
          No campo religioso, Deus derruba as autossuficiências humanas, confunde os planos dos que nutrem pensamentos de soberba, erguem-se contra Deus e oprimem os seres humanos.
          No campo político, Deus destrói os injustificáveis desníveis humanos, abate os poderosos dos tronos e exalta os humildes; repele aqueles que se apoderam indevidamente dos povos, e aprova os que os servem para promover o bem das pessoas e da sociedade, sem discriminações...
          No campo social, Deus transforma a aristocracia estabelecida sobre ouro e meios de poder, e cumula de bens os necessitados e despede de mãos vazias os ricos, para instaurar uma verdadeira fraternidade na sociedade e entre os povos.
          A festa de Nossa Senhora da Assunção representa uma injeção de ânimo para todos que, em meio a tantas dificuldades, peregrinamos na fé e na caridade rumo à pátria definitiva. Nela celebramos a esperança de estarmos todos juntos, um dia, com Maria, participando da festa que no céu nunca se acaba, a festa da total e definitiva libertação.
          Congratulando Maria, congratulamo-nos a nós mesmos, a Igreja. Pois, mãe de Cristo e mãe da fé, Maria também é Mãe da Igreja. Sua glorificação são as primícias da glória de seus filhos na fé.
          Para os tempos de hoje, no momento histórico em que vivemos, a contemplação da serva gloriosa pode nos trazer uma luz preciosa.  Que seria a humilde serva no século 21, século da publicidade e do sensacionalismo? Não se assemelha a isso a Igreja dos pobres? A exaltação de Maria é um sinal de esperança para os pobres. Sua história joga também uma luz sobre o papel da mulher, especialmente da mulher pobre, duplamente oprimida, Maria é a mãe libertadora.
          Assumindo responsavelmente o projeto de Deus, Maria é figura e esperança de quantos aspiram por liberdade e vida. Ela vem reforçar a confiança dos pobres, ao mostrar que neles o Poderoso opera maravilhas de libertação. Serva fiel, bem-aventurada porque acreditou nas promessas, solidária com os necessitados, é mãe das comunidades que lutam contra os dragões que procuram roubar-lhe as esperanças. Associada intimamente a Jesus por sua maternidade e mais ainda pela prática da Palavra participa da vitória de Cristo, primícia da vida em plenitude. O canto de Maria nos estimula a lutar pelo mundo novo já iniciado com a ressurreição de Jesus. Esse mundo novo irá se tornando realidade concreta se formos cidadãos conscientes e responsáveis.
          Reunimo-nos, neste domingo, com Maria para proclamar as maravilhas operadas em nós pela morte e ressurreição de Jesus. Desta forma, iniciamos mais uma semana que, com a graça de Deus e proteção de Maria, será uma semana de paz, abençoada.
          Nada mais justo que Jesus acolhesse de corpo e alma Sua Mãe, a Virgem Maria, na feliz eternidade, uma vez que, totalmente Imaculada emprestou seu útero, a fim de que se tornasse o porta-jóias do próprio Deus, feito pessoa. Penso que o grande convite desta festa, é que cada um de nós se sinta, igualmente, o porta-jóias, o sacrário, o tabernáculo de Jesus Sacramentado, bem como no semblante do irmão, preferencialmente no rosto triste, enrugado, sofrido, desolado e desesperançado. Enfim, celebrar, a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, para nós é celebrar novo ânimo, nova esperança e novas perspectivas de um mundo mais humano e fraterno.
          Que todos sintam as carícias da bênção materna de Nossa Senhora Assunta ao Céu! Com ternura e gratidão, meu abraço amigo e fiel,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Ap 11,19; 12,1.3-6.10; Sl 44(45); 1Cor 15,20-27 e Lc 1,39-56).



domingo, 10 de agosto de 2014

DÉCIMO-NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
MÊS VOCACIONAL DE 2014
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“A verdade e o amor se encontrarão,
a justiça e a paz se abraçarão;
da terra brotará a fidelidade,
e a justiça olhará dos altos céus” (Cf. Sl 84).



            O Décimo-Nono Domingo do Tempo Comum é também o segundo domingo do Mês Vocacional, em que saudamos os vocacionados à vida em família, com atenção especial aos pais, neste dia dedicado a eles.
          “Jesus espera de Pedro e de nós uma resposta corajosa a seu convite: Venham e alimentem-se da palavra e do pão eucarístico. O Senhor é nossa segurança nas tempestades da vida. Nossa saudação aos vocacionados ao ministério ordenado – principalmente aos padres – neste dia dedicado a eles.
          Deus se revela na brisa mansa, mas não deixa de se manifestar também quando os ventos são contrários e as águas agitadas. A Igreja é convidada a acreditar na presença confortadora de Jesus mesmo em meio às maiores dificuldades.
          Deus nos fala de muitas maneiras, também no silêncio do coração. É preciso atravessar as ondas da resistência para construir o reino de Deus. Não podemos medir esforços na defesa do projeto de Deus.
          Na eucaristia, não basta que nos seja dado o sinal da presença de Cristo, o pão e o vinho; é necessária a fé, para reconhecer o Senhor que vem” (cf. Liturgia Diária de Agosto de 2014 da Paulus, pp. 42-44).
          Gosto sempre de insistir no silêncio para poder ouvir o que Deus tem a nos dizer. É bem verdade que devemos estar sempre atentos para podermos ler a presença do louco amor de Deus para com a humanidade nas diversas situações de nossa vida. É preciso colocar Deus no meio, aliás, acima de tudo que vai acontecendo em nosso hodierno. Como os apóstolos em meio ao vento forte em alto mar, vendo Jesus caminhando sobre as águas, somos tentados a gritar: “É um fantasma”. O mundo parece-me tão doentio, que parece ver “fantasmas” a toda hora. Vemos com mais facilidade um Cristo espetaculoso, o que dá manchete, do que um Cristo espetacular, que implica em compromisso de fé. O maior de todos os espetáculos já aconteceu: estamos vivos! Porém, andar também sobre as águas, desconfiados da presença amorosa de Deus em nossa vida, revelado por Jesus andando sobre as águas, reforça nossa auto-suficiência, arrogância e prepotência. Achamos que conseguiremos resolver nossas dificuldades do nosso jeito e, frequentemente dispensamos a mão salvadora do Senhor. Assim nos afogamos em nossa própria fragilidade, deixando-nos levar pelos ventos fortes, que costumam derrubar-nos facilmente. Tais tempestades podem ser a inveja, a ganância, a busca de poder e prestígio a qualquer custo, mesmo que isso machuque outros. O egoísmo e a insensibilidade com os mais fracos. O afogamento mais frequente em nosso tempo é a depressão, a perda do sentido da vida, a sensação de fracasso, a baixa autoestima e a decepção com as pessoas nas quais confiamos mais do que no próprio Senhor da Vida! Só Deus não decepciona. Então não nos resta, senão a humildade de Pedro: sem nenhum constrangimento e nenhuma vergonha, gritemos: “Senhor, salva-me!”
          Deus vem ao encontro do homem especialmente nos momentos de necessidade... O Deus dos profetas e de Jesus é aquele que toma a defesa dos pobres e dos fracos. Ele não está nos fenômenos naturais grandiosos e violentos, mas no sopro leve da brisa, como que significando a espiritualidade e intimidade das manifestações de Deus ao homem.
          A comunidade cristã vive uma existência atormentada pela hostilidade das forças adversas, que se manifestam nas perseguições e dificuldades internas e externas. Unicamente com suas forças, ela não chegaria ao fim do seu caminho. Mas Jesus ressuscitado está presente no meio dos seus; embora invisível, ele os assiste.
          Os discípulos fazem uma travessia. Eles a fazem de barco. É noite. Ventos contrários. Mar agitado. Estamos diante de uma imensa simbologia.
          O mar era visto na época como o lugar onde habitavam monstros terríveis e ameaçadores. Mar agitado e ventos contrários, à noite, eram sentidos como sinais da fúria dos pavorosos monstros, ávidos por engolir os navegantes.
          O barco é símbolo da própria Igreja nascente, as comunidades cristãs se expandindo em missão. Nesta travessia, para o outro lado, isto é, nesta expansão rumo à pátria definitiva, as comunidades sentem-se ameaçadas por ventos contrários e pelo mar agitado, isto é, pelas violentas resistências dos poderosos (=monstros) ao projeto de Deus.
          (É bom não esquecer que os poderosos são fortes diante dos fracos, mas se tornam fracos diante dos fortes em Cristo Senhor!)
          As dificuldades que a Igreja enfrenta hoje devem nos fazer enxergar melhor a presença de Cristo em novos setores da Igreja, sobretudo na população empobrecida e excluída da sociedade do bem-estar globalizado. De repente, Jesus se manifesta como calmaria no ambiente tempestuoso das “periferias existenciais” do mundo, como costuma afirmar o Papa Francisco. Na simplicidade das comunidades nascidas da fé do povo. Temos coragem para ir até ele ou duvidamos ainda, deixando-nos levar pela onda?
          Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler 1Rs 19,9.11-13; Sl 84(85); Rm 9,1-5 e Mt 14,22-33).



domingo, 3 de agosto de 2014

DÉCIMO-OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
MÊS VOCACIONAL
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“O homem não vive somente de pão,
mas vive de toda palavra que sai da boca de Deus,
e não só de pão. Amém. Aleluia, aleluia!” (Mt 4,4).


          A Palavra de Deus do Décimo-Oitavo Domingo do Tempo Comum, coloca-nos diante do evento da Multiplicação dos Pães, em que “Jesus nos convida a nos alimentar de sua palavra e da eucaristia para que ninguém vá embora com fome. Celebramos a Páscoa de Cristo, a qual se manifesta em todas as pessoas e grupos que têm compaixão dos pobres e famintos e sabem partilhar com eles.
          O reino de Deus não pode se concretizar enquanto houver fome de pão e de dignidade. Banquete com fartura é sinal do projeto de Jesus, que tem compaixão do povo e convoca seus seguidores para que alimentem as multidões famintas.
          Somos gratuitamente convidados a participar do banquete messiânico. Jesus propõe a superação da fome e da miséria. O amor de Deus é nosso aliado, ninguém pode nos separar dele. (cf. Liturgia Diária de Agosto de 2014 da Paulus, pp. 23-25).
          Deus destinou os bens da criação para todos. Mas uns poucos se apoderaram deles, conservando os demais sob férrea dependência, incapazes até de ter acesso aos bens básicos da vida. O banquete da vida se tornou privilégio de poucos, que vivem à custa do sangue dos pobres explorados. Deus subverte essa situação, convidando os pobres explorados a sair da dependência e a saborear o banquete da vida, na liberdade e fraternidade, onde o comércio é substituído pela partilha dos bens da criação. Dessa forma inicia o novo êxodo do povo de Deus em direção ao mundo novo. Jesus deu a esse mundo novo sua forma definitiva, convidando as pessoas a lutar para que ele se concretize no meio de nós.
          Para longe de todos os poderes de morte, dos Herodes que, com seus banquetes de morte, buscam ter vida, matando a esperança do povo, como fizeram com João Batista, Jesus vai para um lugar deserto e afastado. É das cidades, isto é, do espaço onde impera o domínio de Herodes e de seu sistema explorador, que o povo sai (= êxodo!), indo ao encontro do Messias libertador, precisamente no espaço da aliança, no deserto. E qual a reação de Jesus? Encheu-se de compaixão, isto é, sofreu com aquela gente sofrida.
          É neste lugar deserto e afastado, que se aprende, na prática, o segredo do Reino de Deus em oposição ao reino de Herodes. Não é indo comprar nas vilas, isto é, deixando-se explorar pelos que têm para vender, que os pobres terão comida em abundância, mas partilhando aquilo que possuem.
          A Palavra que é Jesus em sua totalidade já está em nosso meio, nada nos separa dela. Esse Jesus-Palavra é o primeiro alimento a nos fortalecer com seu segredo, a saber, a alternativa de uma sociedade de partilha fraterna, capaz de saciar a fome de todos. Ouvir, assimilar e colocar em prática esta Palavra que é Jesus, eis o desafio que temos pela frente.
          Diante da Palavra proclamada neste domingo e diante do Projeto de Jesus Cristo anunciado, somos impelidos não apenas a alimentar-nos a nós mesmos, porém, saciados, assumir o compromisso da erradicação da fome e da miséria em nossas Comunidades de Fé. Segundo a ONU, um bilhão de pessoas no mundo passa fome, diariamente. A disparidade entre pobres e ricos ainda é indecente. Vivemos na Região de Ribeirão Preto, entre uma das maiores concentrações econômicas e um incalculável número de pessoas sem nenhuma perspectiva de vida digna.
O compromisso evangélico que se espera de nós, é a promoção da dignidade da pessoa em sua totalidade. Não é jogando “migalhas” daqui  e dali que estaremos assumindo nossa missão de verdadeira partilha.
          Gosto de frisar que sempre devemos partilhar de nossa pobreza, oferecendo o que temos de melhor àqueles que dependem de nossa responsabilidade e que têm menos do que nós. Saber que possuímos um dos “lixos mais luxuosos do País”, deve no mínimo, remeter-nos a buscar soluções que não só matem a fome imediata das pessoas, oferecendo-lhes “sopas, lanches, esmolas e outros tipos de migalhas”, mas oportunidades de vida e não de sobrevivência!
          A Décima-Oitava Semana do Tempo Comum é enriquecida pelo início do Mês Vocacional. Neste primeiro domingo do mês vocacional, recordamos os vocacionados para o ministério ordenado – diáconos, padres e bispos – e rezamos de modo especial pela santificação de todos eles. Pois só um padre santo poderá santificar sua comunidade, e isso se faz possível no profundo encontro de ambos, na oração!   
          Finalmente sonhamos com o dia em que todo ser humano tenha direito, de verdade, a sentar-se à mesa comensal de nossas Comunidades!
          Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, nosso abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper

(Ler Is 55,1-3; Sl 144(145); Rm 8,35.37-39 e Mt 14,13-21).

domingo, 27 de julho de 2014

DÉCIMO-SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
Maravilhosos são os vossos testemunhos,
Eis por que meu coração os observa.
Vossa palavra, ao revelar-se, me ilumina,
Ela dá sabedoria aos pequeninos” (cf. Sl 118).



          Refletiremos a Palavra viva do Pai, que é Jesus, do Décimo-Sétimo Domingo do Tempo Comum, que continua a nos falar dos segredos do Reino dos Céus.

          A Palavra de Deus deste domingo leva-nos a “encontrar os verdadeiros tesouros do Reino de Deus. Somos convidados a entrar na posse do tesouro escondido, centrando nele o projeto de nossa vida e escolhendo entre coisas novas e velhas.
         
Salomão pede sabedoria para governar e julgar com justiça; Paulo nos diz que Deus convida a todos os seres humanos a fazer parte de sua grande família e Jesus nos ensina que o seu reino deve ser nossa principal preocupação.
         
A sabedoria é necessária aos governantes para bem servirem o povo. É necessário investir com decisão no reino dos céus. Deus, artesão perfeito, fez de nós uma obra-prima” (cf. Liturgia Diária de Julho de 2014 da Paulus, 79-81).
         
Insisto em diferenciar o sabido do sábio! Sabido é quem possui uma avalanche de informações, sem saber administrá-las. Tais informações podem levar a pessoa ao “oco”, ao “nada”, ao “superficial” e “aparente”. Já o sábio, mesmo sem diploma nenhum, é aquele que acolhe, compreende e vive a sabedoria divina! É exatamente o que o Rei Salomão pede a Deus. Como nosso mundo seria diferente, se deixássemos Deus, nosso Criador, respirar nas entranhas de nossa intimidade. Se deixássemos os dons do Espírito Santo agir em nossas escolhas. Muitas vezes tem-se a impressão de que a pessoa tem a arrogante pretensão de querer ser deus sobre o Criador e até chega a convencer-se de que consegue manipular e “barganhar” o Espírito Santo. Tais pretensões, chamamos de “politicagem daqui e dali”, em instituições familiares, comunitárias, sociais, políticas e nem por último eclesiais, o que naturalmente é  desastroso, quando não pecaminoso.  Mas o que não é Deus cai. Um dia cai e cai feio. O grande convite, portanto, é deixar Deus agir em nós, esvaziando-nos de qualquer ganância prestigiosa e elogiosa. Gosto demais de rezar o terço com o povo simples, que às quatro horas da madrugada, ligado na Rádio Aparecida, retransmitida pela Rádio CMN 750-AM de Ribeirão Preto, reza por tantas necessidades e por tantos que além de não rezarem, ainda os ridicularizam. Esse povo, na minha modesta opinião, é verdadeiramente sábio e não simplesmente sabido.
          Para Deus, os pobres e desprotegidos são seu tesouro. Por este tesouro ele investiu o melhor de si, isto é, seu próprio Filho que se fez pobre com os pobres. Aí está o tesouro da sabedoria de Deus, o segredo de seu Reino, infinitamente mais valioso do que todos os poderes e riquezas deste mundo.
         
Então, qual é o Reino de Deus hoje? Aquilo que queremos ter em nosso poder, aquilo que com tanta insistência agarramos e procuramos segurar? Nossas posses, privilégios de classe, status etc.? Ou não será antes a participação na comunhão fraterna, superar o crescente abismo entre ricos e pobres e transformar as estruturas de nossa sociedade, para que todos possam participar da construção do mundo e da História que Deus nos confia?
         
A verdade é que cada pessoa, mais cedo ou mais tarde, em algum dia, terá, obrigatoriamente, que se desfazer de tudo, até mesmo da vida. É o dia em que vamos morrer. Naquela hora derradeira, faremos a experiência de total pobreza: experiência de não sermos, de fato, donos de nada, nem mesmo da vida. Suprema hora em que todo poder, orgulho, vaidade, apego necessariamente caem por terra. Hora, portanto, da suprema e bem-aventurada chance de, no vazio de nós mesmos, Deus ser tudo em nós.

          Pouco tempo antes do Padre Léo da Canção Nova falecer, encontrei-me com ele no aeroporto de Navegantes (SC). Ele viajava de Brusque e eu de Blumenau para São Paulo. Tive o privilégio de viajar ao lado dele e, o que me marcou profundamente foi a seguinte frase dele:

“Padre Gilberto, antes de adoecer e chegar a este estágio de minha fase terminal da doença, já aguardando o dia de ver Deus face a face, sempre tive muita dó dos pobres. Hoje, fazendo a experiência da enfermidade que me consome tão rapidamente, passo a ter dó dos ricos. Você já imaginou a hora em que tiverem de deixar tudo para trás?”

          Já antes, quando num velório, eu me imaginava confinado naquele pedaço de madeira, pensava como ele. Depois deste encontro com o Pe. Léo ficou ainda mais intensa a reflexão: no dia em que meu nome ecoar na eternidade, não terei como não ir. E irá comigo somente aquilo que fui e, nada do que possuí. O que tive, ficará para trás.
         
Que meu tesouro seja de valores essenciais: amor gratuito, verdade, justiça, liberdade e paz! O resto é apenas resto!...

Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper

(Ler 1Rs 3,5.7-12; Sl 118(119); Rm 8,28-30 e Mt 13,44-52).