sábado, 28 de fevereiro de 2015

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA



COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
A Palavra de Deus do Segundo Domingo da Quaresma nos permite uma espiadinha no céu, através do evento da Transfiguração do Senhor diante de três discípulos: Pedro, Tiago e João na Montanha Sagrada.
A página do Livro de Gênesis nos leva a pensar que, de quando em vez, Deus brinca conosco. Não é possível à nossa razão, um Deus de Amor pedir a Abraão, que sacrifique seu próprio filho. Mas não é brincadeira de Deus, e sim uma pedagógica provação da maturidade da fé. Será que somos realmente fiéis à Aliança que Deus selou conosco? É lógico que Ele não quer sacrifícios, muito menos de vidas, mas fidelidade. O holocausto Ele já tem preparado; é Seu Filho Amado. Por isso, o episódio narrado em Gênesis de hoje, remete-nos à Paixão e Morte de Jesus na cruz.
            As provações que a vida nos impõe, ou amadurecem nossa fé em Deus, ou nos revoltam e afastam d’Ele. Sempre dependerá de nossa eleição pessoal.
            Ao nosso redor, tantas coisas mexem com o coração e desafiam a nossa fé. Tantas pessoas que se afastaram das nossas comunidades. Milhões de crianças que moram nas ruas, na mais triste pobreza. Tantos jovens entregues às drogas.


É incontável a fila de irmãos e irmãs que passam fome e não tem casa para morar. Entre os poderosos e donos do dinheiro imperam o egoísmo, a concentração de poder, os privilégios. São milhões os sobrantes e excluídos da mesa da vida, no dizer dos Bispos em Aparecida.
            O que essa situação tem a ver com a nossa preparação para a festa da Páscoa e com o evangelho da Transfiguração de Jesus.
            Como a narrativa da Transfiguração está no centro do Evangelho de Marcos, o evangelista quer responder a uma pergunta bem concreta: Quem é Jesus? O povo vai descobrindo que ele é o Messias. Mas não um Messias milagreiro, rei glorioso, vencedor, rico, poderoso, capaz de mudar rapidamente a condição da humanidade e fazer acontecer num rito mágico a presença do Reino. Pedro, na montanha, tem essa idéia e acredita que o reino, simbolizado nas três tendas, pode acontecer sem a doação, sem os sacrifícios, sem a morte e a entrega da vida.
Hoje, nas filosofias do mundo, somos contaminados por falsas expectativas como as presentes na conversa de Pedro na montanha. Ter fé significa entrar nos desígnios de Deus que frutifica na solidariedade com os irmãos. A doação na força da páscoa de Jesus nos transfigura por dentro e por fora. Transforma a situação e a realidade dos abandonados e dos privados do necessário para viver e cantar a vida: saúde, pão, terra, casa, salário digno, respeito e amor pela vida...
            A fome do irmão, as crianças abandonadas nas ruas, as violências ao ser humano são chamadas de Jesus para subirmos com ele a um monte alto e entrarmos nos desígnios de Deus Pai, depois descermos da montanha e fazermos a nossa parte. Páscoa é isso: passagem de situações de menos vida para situações de mais vida, de situações de pobreza e miséria para uma vida digna, bonita, feliz e realizada para todos.
            Na leitura da carta aos Romanos, aprendemos que o amor de Deus Pai é imenso, gratuito, generoso, infinito e que não pode ser destruído por nenhuma quebra da aliança ou infidelidade por parte do ser humano.
            Acolhamos o convite deste Segundo Domingo da Quaresma, deixando-nos transfigurar com Jesus e, também transfigurarmos a vida desfigurada de nossos irmãos cuja dignidade lhes foi tirada por conta do consumismo, do hedonismo e do egoísta individualismo.
            Debrucemos nossa esperança sobre a possibilidade de dias melhores. Uma das mais edificantes visitas que fiz, nos meus 25 anos de ministério ordenado, foi há algum tempo: entrando no quarto de um irmão enfermo pensei: Este moço é um santo!... A santidade dele se fazia sentir naquele quarto. Nem bem terminara de pensar, a irmã que cuida dele, disse em voz alta: “Padre, este meu irmão é um santo. E tem mais: ele me ensina a santidade... faz 57 anos que ele se encontra acamado e sempre sorridente e agradecido a Deus. Nunca meu irmão reclamou de nada...”

Diante daquela realidade, do semblante sereno e agradecido do moço, senti muita vergonha pelas vezes em que reclamei da vida. Isso não significa que devamos ficar passivos à precária Saúde Pública, que não raras vezes trata das pessoas como se fossem bichinhos. Todos somos conclamados a promover a dignidade e rezar com a Campanha da Fraternidade “Eu vim para servir” (cf. Mc 10,45).

            Desejando-lhes muitas bênçãos e saúde, com ternura e gratidão o abraço amigo e fiel,
Pe. Gilberto kasper
(Ler Gn 22,1-2.9-13.15-18; Sl 115(116B); Rm 8,31-34 e Mc 9,2-10)
Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Março de 2015, pp. 17-20 e Roteiros Homiléticos da CNBB da Quaresma de 2015, pp. 27-35.


sábado, 14 de fevereiro de 2015

SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM


COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
  

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

            Se puder escolher duas palavrinhas centrais que nos remetem à Palavra de Deus proclamada neste Sexto Domingo do Tempo Comum, seria: Compaixão e Dignidade! Trata-se de uma Compaixão Especial e de uma Dignidade Integral! Não uma dó apenas, e nem uma esmolinha a quem se encontra em dificuldades, principalmente portadores de doenças contagiosas, incuráveis, como a lepra! Tanto a Compaixão como a Dignidade implicam em compromisso. Da dó passamos a comprometer-nos com a pessoa necessitada e sofredora.
          O Profeta Eliseu indica o caminho a Naamã que o procura para curá-lo de sua lepra. O Profeta não é milagreiro. Faz com que o enfermo faça sua parte; participe do processo de sua própria cura. De acordo com a página do Segundo Livro dos Reis, basta que Naamã se banhe sete vezes no Rio Jordão para adquirir a cura. Mas Naamã, ao invés, esperava algo de mão-beijada. Um milagre mais espetaculoso do que espetacular. Mas ouvindo seus servos, Naamã fez o que Eliseu lhe sugeriu e curou da lepra.
          Com frequência, também nós esperamos as coisas acontecerem ou corremos atrás de coisas espetaculosas. O espetacular é operado pelo próprio Criador, que deseja suas criaturas felizes e cheias de saúde, realizando-se com a dignidade que lhes é conferida, por serem as criaturas prediletas do próprio Deus. O grande espetáculo do milagre Deus já operou; basta que nos demos conta disso e vivamos de acordo com a Vontade de Deus para conosco, que não é outra, do que nossa própria felicidade e realização plena. Ir ao Rio Jordão hoje, significa ir ao médico, confiar nele, tomar os remédios e seguir suas orientações. Quem espera curas milagreiras, sem participar do processo do restabelecimento da saúde, acaba frustrado, porque Deus não é mágico e nós não somos suas petecas, porém suas criaturas prediletas, convidadas a colaborar na administração das curas de nossas enfermidades, sobretudo, da lepra do pecado!
  

“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão,
tocou no leproso e disse:
‘Eu quero: fica curado!’” (cf. Mc 1,41).

            O Evangelho de São Marcos determina uma das principais atividades ministeriais da Missão de Jesus: com compaixão, devolver a dignidade aos enfermos, sobretudo aos excluídos da convivência social, por causa de suas doenças contagiosas, como no caso da lepra. O processo da cura começa com a vontade da pessoa de querer a saúde!
O querer a cura, implica em ter fé, confiança e disponibilidade de pedir: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Ao perceber a fé de quem pede, Jesus imediatamente age com compaixão, respondendo: “Eu quero: fica curado!”. Muitos de nós, ao sentirmo-nos curados, damos por encerrado o processo. Não é bem assim. Jesus pede que as formalidades preceituais sejam cumpridas. Mais do que fazer promessas e até mesmo cumpri-las depois, Jesus espera engajamento na Comunidade de Fé, na Comunidade Eclesial, no Compromisso e no Testemunho de ternura, amor, compaixão e misericórdia para com os demais enfermos em nossas relações. Implica, também, em zelarmos por uma melhor qualidade de vida. Sem nossa efetiva participação, nada acontece. Somos os protagonistas de nossa própria saúde ou de nossas enfermidades.
            São Paulo, ao escrever sua Primeira Carta à Comunidade de Corinto nos indica como melhor agir, para que também nossas Comunidades gozem de saúde. A cura individual não combina com o cristianismo. Somos responsáveis pela saúde da Comunidade à qual somos inseridos. “Fazer tudo para a glória de Deus... Procurar agradar a todos em tudo, não buscando apenas o que é vantajoso para nós mesmos, mas para todos...”. Lembro-me bem dos três pecados paroquiais, que nosso saudoso Dom Arnaldo Ribeiro, sempre elencava em suas Visitas Pastorais, e que precisam ser superados: saudosismo, milindrismo e estrelismo. E a pior lepra a ser curada em nossas atividades ministeriais, pastorais e missionárias é a inveja, ao lado de outras como: carreirismo, competição entre agentes e clérigos, indiferença e insensibilidade com o bem-estar da Comunidade, omissão, hipocrisia, fofocas caluniosas, falta de transparência, para não dizer mentiras descabidas e a aguda falta de humildade!


“Deus seu povo visita,
seu povo meu Deus visitou!” (cf. Lc 7,16).


         
O médico que cura as enfermidades de nossas Comunidades é o próprio Cristo Jesus! Se não desviarmos nosso olhar, nosso coração, nosso discurso, nossas atividades pastorais do Messias, seremos saudáveis e protagonistas de Compaixão e de Dignidade num mundo que está simplesmente doente! Com a Campanha da Fraternidade deste ano, possamos colaborar para com a FRATERNIDADE: IGREJA E SOCIEDADE – Eu vim para servir (cf. Mc 10,45).
          Sejam todos muito abençoados. Com ternura e gratidão, o abraço fiel.
Pe. Gilberto Kasper

(Ler 2 Rs 5,9-14; Sl 31(32); 1Cor 10,31-11,1 e Mc 1,40-45).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Fevereiro de 2015, pp. 55-58 e Roteiros Homiléticos da CNBB de Fevereiro de 2015, pp. 95-100.