domingo, 14 de setembro de 2014

FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ


COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo, mas para que o
mundo seja salvo por ele” (cf. Jo, 3-17).

          “A festa da Exaltação da Santa Cruz, da qual deriva o rito da ‘Adoração da Santa Cruz’ na Sexta-feira Santa, tem origem no Oriente, com a celebração da dedicação das basílicas constantinianas no Gólgota e no Santo Sepulcro, no dia 13 de setembro de 335. Por volta do século VII, no dia 14 de setembro, surgiu o costume de expor a relíquia da Cruz aos fiéis que, segundo uma tradição, fora encontrada neste dia. Esta prática se sobrepõe à da festa da dedicação das basílicas, sobrepondo-se também o dia 14 ao dia 13.
          Em Roma, encontramos testemunhos desta festa por volta do século VII. Mais tarde, à festa foi acrescentada a comemoração da vitória de Heráclito sobre os persas em 630, dos quais foram recobradas as relíquias da Cruz, solenemente levadas de volta a Jerusalém. No início do século XIII, porém, a festa reforçou aquele segundo motivo com a prática da veneração das relíquias da Cruz feita pelo Papa e os Cardeais na Igreja Estacional de São Silvestre, sendo seguida de uma procissão até a Basílica de São João de Latrão ao canto do Te Deum. Na Lateranense celebrava-se a hora média do Ofício Divino e depois a Celebração Eucarística presidida pelo Papa.
          A Cruz para os judeus significa vergonha e escândalo; – castigo reservado ao pior dos bandidos na época de Jesus – para os Romanos, loucura, mas para nós Cristãos, a Cruz é sinal de Salvação!
            A Cruz é um grande sinal de contradição: expressão da morte ignomínia de Jesus como malfeitor, que provocou questionamentos e gerou inseguranças na ordem estabelecida pelos poderes religiosos e políticos e, ao mesmo tempo, sinal de entrega e esvaziamento – kenosis – de Jesus, obediente ao projeto do Pai de salvar a humanidade (conforme a Carta de São Paulo aos Filipenses), e isso lhe custou a morte de Cruz. Humilhação e doação de vida.
          Apesar do rechaço – lugares e instituições que não aceitam mais manter uma Cruz em seus espaços públicos – e da banalização – pessoas que ostentam a Cruz no peito como forma de demarcação das chamadas tribos urbanas -, a Cruz é para nós cristãos o sinal maior da nossa adesão a Jesus Cristo e da proclamação de sua ação salvadora.
          Exaltá-la por uma festa própria nos põe no centro da nossa espiritualidade cristã da vida que nasce do ‘dom de si’ de Jesus, para que o mundo tenha vida. De fato, afirma São Paulo: diferente dos judeus, que se escandalizaram da Cruz e dos pagãos que afirmam ser uma loucura perder a vida pelos outros, ‘nós, porém, proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. (...) Pois, o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens’ (1Cor 1,23.25).
          Há uma semana participamos do Grito dos Excluídos em nossas Dioceses e Regionais. Como o Mistério de Cristo ilumina a nossa realidade, não podemos nos esquecer da Cruz dos crucificados de hoje: pobres, idosos, crianças em risco e sem escola, moradores de rua, minorias, irmãos e irmãs traficadas e exploradas sexualmente, ‘rebaixados’ da sua condição humana e exaltados por sua condição de Filhos e Filhas, adquirida pela entrega salvadora de Cristo na Cruz. A humilhação de Cristo é solidariedade de Deus aos que ainda hoje são rebaixados e diminuídos.
          ‘Pusestes no lenho da Cruz a salvação da humanidade, para que a vida ressurgisse de onde a morte viera. E o que vencera na árvore do paraíso, na árvore da Cruz fosse vencido’ (cf. Prefácio Próprio da Festa). A morte veio da árvore do paraíso terrestre por meio de Adão. Mas, em Cristo, a vida ressurge. E o mal que vencera Adão, foi vencido por Cristo através da Cruz. A Cruz de Cristo é, portanto, o sinal de sua vitória e não de sua derrota; sinal da sua glorificação, vencendo a morte” (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum II da CNBB de 2014, pp. 14-19).
          Assim como não deve ter sido fácil ao entendimento humano na época da entrega total de Jesus na Cruz, ver o fim tão trágico daquele que todos esperavam ser o Senhor todo poderoso, ainda hoje, muitos não compreendem essa “loucura de Deus”, de deixar seu Filho entregue ao pior dos castigos, a Cruz. Com o Papa Francisco, afirmamos que é impossível chegar à Vitória, sem antes passar pela experiência da Cruz! O mistério da cruz não deve ser compreendido, mas acolhido no tesouro de nossa fé, que emerge da intimidade com Deus na pessoa de Jesus Cristo. Só quem é, de verdade, amigo de Jesus, crerá incondicionalmente no mistério da Cruz. Mistério não se explica, se aceita ou não! É na Cruz que encontramos meios eficazes de nossa santificação. Pois ela é nosso passaporte para a Ressurreição! Só então seremos verdadeiros cristãos! Muitas vezes nossa Cruz é alguém muito próximo, que precisa de nosso carinho, de nosso abraço, de nossa misericórdia e de nossa doação cheia de amor com sabor divino: totalmente desinteressado e gratuito!
Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,        
Pe. Gilberto Kasper

(Ler Nm 21,4-9; Sl 77(78); Fl 2,6-11 e Jo 3,13-17).

domingo, 7 de setembro de 2014

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM MÊS DA BÍBLIA


COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença;
tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia” (Sl 118,137.124).

            O Mês de Setembro é, especialmente, dedicado à Bíblia, incentivando-nos À Prioridade do Anúncio da Palavra de Deus. E o Vigésimo Terceiro Domingo do Tempo Comum nos apresenta o “Evangelho, em que Jesus nos convida ao diálogo para superar os conflitos e garante sua presença na comunidade reunida. Além disso, mostra que a correção fraterna, apesar de difícil, é belo gesto de ajuda entre irmãos que se amam e se respeitam.
          Neste dia da Pátria, queremos estender nosso olhar e nossa prece sobre todo o povo brasileiro e sobre os dirigentes da nação, especialmente os que serão eleitos daqui há menos de um mês, para que vigiem com carinho pelos pobres e sofredores.
          A Palavra de Deus nos diz que todos somos responsáveis uns pelos outros. O amor faz que nos preocupemos com as pessoas e nos impulsiona a dialogar com quem se desviou do caminho do bem.
          Somos responsáveis pela violência que faz tantas vítimas na sociedade. A correção fraterna deve ser realizada em clima de amor e de oração. O amor pelo próximo é a plenitude da lei.
          A Eucaristia é o sinal da comunhão fraterna. Participando do Corpo e Sangue do Senhor, tornamo-nos solidários no bem e afastamos de nós o egoísmo” (cf. Liturgia Diária de Setembro de 2014 da Paulus, pp. 30-32).
          Estamos na Semana da Pátria e entramos no mês dedicado à Bíblia. No Evangelho encontramos Jesus, o mestre da justiça, oferecendo ensinamentos e práticas geradores de novas relações e inspiradores de novas posturas na construção da sociedade justa e fraterna. A sua Palavra nos educa para o diálogo e a correção fraterna: única dívida que devemos ter uns com os outros.
          Que fatos e acontecimentos precisam ser lembrados na celebração deste final de semana e que nos ajudem a perceber e celebrar os sinais do Reino de Deus entre nós? Que avanços e sinais de vida digna para o povo brasileiro podemos constatar e celebrar na Semana da Pátria de 2014?
          Assumimos o grito ainda abafado de uma multidão incontável de excluídos, que lutam por respeito, dignidade, igualdade e cidadania, valores que o sistema social, político e econômico lhes tem negado em nosso país. Toda essa realidade, que ainda clama por reconciliação, ganha sentido e força no mistério da Páscoa do Senhor que celebramos.
          Pelo profeta Ezequiel somos convidados a sermos sentinelas do bem e da justiça na noite das injustiças que existem e que ceifam a vida de milhões. Garantir e cultivar a justiça é um compromisso inerente que temos com o Deus da vida e da liberdade. Até que ponto a profecia de Ezequiel não deveria ser acordada hoje na missão da Igreja, promotora da vida e solidária com os excluídos?
O salmista nos pergunta se não abandonamos a aliança, não esquecemos o nosso Deus e nos instalamos numa religião fácil, sem compromissos com a criação e os mandamentos de Deus?
          Na Carta aos Romanos, Paulo nos dá a entender que há uma só maneira de amarmos a Deus que é amando o próximo, a cada pessoa, do jeito que ela é, e ninguém escolhe o próximo para amá-lo. Ele simplesmente se apresenta como dom de Deus e também como desafio à nossa capacidade de amar. Temos muita consciência que somos devedores diante de Deus de uma dívida impagável, a não ser que sejamos capazes de gestos gratuitos como os de Jesus, que se entregou radicalmente por amor.
          Quem ofendeu um membro da Comunidade rompeu com a Comunidade toda. O Evangelho nos convida a fazer de tudo, apelar a toda a criatividade para que reine entre nós o jeito de ser de Jesus. Mas, se não lhe der ouvidos, convide uma ou duas pessoas para ajudar no diálogo. Se mesmo assim não houver reconciliação, só depois de muitas tentativas é que se recorre à Comunidade, que age em nome de Jesus, ajudando nos conflitos e nas necessidades dos irmãos. Parece até que estamos pressionando o irmão, mas como se trata da justiça do Reino, precisamos fazer de tudo para que o irmão não se perca, não saia da caminhada da Comunidade, do seguimento fiel a Jesus e volte-se para as exigências evangélicas. E se nada der resultado satisfatório? Só aí a Comunidade tomará conhecimento do erro e será chamada a tomar uma decisão: Caso não der ouvidos, comunique à Igreja.
          Antes de denunciar, denegrir ou excluir é necessário acolher, perdoar, aconselhar e colocar em contato com o bem, inserir na Comunidade fraterna e fazer de tudo para que as pessoas não se afastem do bem e da prática da justiça. O Papa Francisco insiste tanto nisso em suas alocuções, sobretudo em seu primeiro livro: A Igreja da Misericórdia! Mas em nossas Comunidades acontece, frequentemente, o contrário: quantos líderes conhecemos que simplesmente se sentem no direito de excluir e mandar embora os filhos que ajudaram a escrever a história de suas Paróquias. Em minha opinião isso é diabólico e precisa urgentemente mudar! Nenhum Padre tem o direito de exigir que sua comunidade se adapte aos seus caprichos e não poucas vezes aos seus desequilíbrios afetivos e emocionais. Tais pastores não são configurados a Jesus, mas fazem da Igreja um trampolim para a própria sobrevivência. Não faltam casos concretos entre nós, que me parece gritar por uma séria conversão pastoral da Paróquia!
          Do começo ao fim dos Evangelhos, Jesus prega ser o Reino de Deus um Reino de Justiça. Logo onde não há Justiça, também não se sentirá o sabor do Reino de Deus! Ao lado da Justiça soma-se a Misericórdia, cujo resultado é o verdadeiro Amor com sabor divino!
          Tive, na Alemanha, um Reitor no Seminário, que detestava Dedo-Duro. Costumava dizer que, geralmente atrás de alguém que denuncia o erro do outro, gratuitamente, esconde o próprio erro atrás do erro desse outro. É o contrário da mensagem da Palavra deste domingo, que sugere a correção fraterna. Em nossas Comunidades, mas principalmente entre os próprios Ministros Ordenados, é muito frequente o caminho inverso do sugerido pelo Evangelho. Primeiro espalha-se o erro do irmão na Comunidade, difamando-o o quanto possível, para abastecer-se de argumentos a serem levados à autoridade eclesial: no caso da Comunidade, o Padre; no caso do Clero, o Bispo, e geralmente o último, a saber, que errou, é o irmão já totalmente difamado, triturado, esmagado pelos demais. Como isso é feio. Quem não tem a capacidade de corrigir fraternalmente o irmão, é também incapaz de perdoar e amar. Muitos se sentem tão “perfeitos e corretos” que não aceitam correção. A prepotência e a arrogância não permitem e não dão espaço nem mesmo a um exame da própria consciência. Esses geralmente se alegram em “pisar naqueles que erram” e na maioria das vezes os excluem de suas Comunidades que não têm espaço para pessoas que não agradam, não pensam como nós, ou questionam determinadas hipocrisias nossas. É mais fácil mandar embora do que dialogar com o “diferente” ou o “difícil”. Existe algo mais anti- evangélico do que dizer: “Em minha Paróquia eu fiz uma limpeza de pessoas insuportáveis... Quem não aceita dançar a música que eu tocar, sinta-se desconvidado...” Pior do que isso é aquele Sacerdote ou Agente de Pastoral, que além de não ter a capacidade de perdoar, talvez porque nunca tenha feito a experiência do verdadeiro amor de Cristo Misericordioso, sentir-se vitorioso por ter esvaziado sua Comunidade, desrespeitando a história da mesma, que certamente não começou com a chegada dele; ter o apoio de seus Superiores para surrar e machucar suas ovelhas, como se fossem inúteis. Este tipo de endeusamento clerical seguramente lhe garantirá aquele estado de vida descrito pelo próprio Cristo, como “Lugar do fogo do inferno, onde haverá choro e ranger de dentes...”.
          Rezemos pela conversão de nossa Igreja, a começar de nós Presbíteros, a fim de que prevaleça o Amor! Quem realmente se sente configurado com Cristo, o Bom Pastor, ama e acolhe quem lhe é confiado para tornar-se a verdadeira Igreja de Jesus Cristo e não desse ou daquele ministro, seja ele ordenado ou não.
                    Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Ez 33,7-9; Sl 94(95); Rm 13,8-10 e Mt 18,15-20).





sábado, 30 de agosto de 2014

VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
 “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir;
foste mais forte, tiveste mais poder...” (Jr 29,7ª).

            O Vigésimo-Segundo Domingo do Tempo Comum, último do Mês Vocacional, reflete, contempla e agradece a Vocação dos Ministérios e Serviços não ordenados, especialmente os Catequistas, que tanto enriquecem a Igreja de Jesus Cristo, sempre ministerial, discípula e missionária!
          “Não é fácil renunciar a bens e privilégios, mas é fundamental abandonar maneiras velhas de pensar e agir, para poder seguir o evangelho. Convocados a esse seguimento, celebramos a páscoa de Jesus, a qual se manifesta em todos os que perdem a vida por amor ao reino. Celebremos em comunhão com os vocacionados aos vários ministérios e serviços, com atenção especial aos catequistas.
          A palavra de Deus cativa e compromete as pessoas. Quem busca assumir o projeto de Jesus experimenta pessoalmente a verdade de que os sistemas do mundo não combinam com o evangelho de Jesus Cristo.
          A palavra de Deus nos seduz e nos compromete com seu projeto. O seguimento de Jesus exige renúncia e comprometimento. O verdadeiro culto que agrada a Deus é fazer sua vontade.
          ‘Ó Deus do universo, reunidos em vosso nome, refletimos e rezamos como irmãos e irmãs. Vossa palavra é exigente; para seguir vosso Filho, Jesus, ela nos diz que devemos renunciar a tudo o que não condiz com seu projeto e tomar a cruz de cada dia. Ajudai-nos a ser fortes diante das exigências e das dificuldades para não esmorecermos no caminho.’” (cf. Liturgia Diária de Agosto de 2014 da Paulus, pp. 99-101).
          Nós podemos desconfiar de uma Igreja que não conhece o martírio. Por quê? Porque o caminho dos cristãos não é diferente do caminho de Jesus. É feito de incertezas, mas também de coragem e esperanças; de lutas, mas também de vitórias; de cruz, mas também de ressurreição e vida; de não-conformismo, mas também de compromisso com o projeto de Deus. Disso nos falam Jeremias, Jesus e Paulo. Pedro, no evangelho deste domingo, representa o medo que temos das consequências do cristianismo que enfrenta as forças contrárias à vida; Jeremias é a voz dos que sofrem fortemente os apelos da Palavra irresistível; Jesus nos mostra o caminho da vitória; Paulo nos fala do verdadeiro culto agradável a Deus. A Palavra deste domingo, em síntese, nos encoraja no testemunho cristão, evitando que a mediocridade nos conduza a um beco sem saída.
          Todos nós, como Jeremias e como Pedro, passamos pela tentação de querer apossar-nos apenas do aspecto glorioso do mistério pascal, negando sua dimensão de renúncia à própria vida. A tentação do ser humano moderno é a realização humana através das próprias forças. Esquece-se de que a pessoa humana transcende-se a si mesma a partir de Deus. É só perdendo-se a si mesmo pela doação da própria vida ao próximo por causa de Cristo que ele se realiza de verdade.
          O destino do cristão, discípulo de Jesus, não pode ser diferente do destino do mestre. O evangelho deste domingo é claro: ‘Para estar com ele são exigidas duas condições: Renunciar a si mesmo é deixar de lado toda ambição pessoal. Em outros termos, temos aqui a repetição da primeira bem-aventurança: ser pobre (cf. Mt 5,3). Carregar a própria cruz é enfrentar, com as mesmas disposições de Jesus, o sofrimento, perseguição e morte por causa da justiça que provoca o surgimento do Reino... É a última bem-aventurança, a dos perseguidos por causa da justiça (cf. Mt 5,11). Ser discípulo de Jesus, portanto, é reviver a síntese das bem-aventuranças.
          A lição que Pedro recebe ensina-nos a olhar para Cristo, para ver nele a lógica de Deus; a olhar para os pobres, para ver neles o resultado da estratégia do Adversário... Pois o sucesso e a ganância produzem os porões de miséria. Devemos analisar o sistema de Deus e o sistema do Adversário hoje. O sistema de Deus proíbe ao homem dominar seu irmão, porque Deus é o único dono; os sistemas contrários são baseados na dominação do homem pelo homem. Quem quiser ser mensageiro do Reino de Deus experimentará na pele a incompatibilidade com os sistemas deste mundo. O mensageiro de Deus, seguidor de Jesus, será rejeitado pela sociedade como corpo alheio. Tomando consciência disso, vamos rever nossa escala de valores e critérios de decisão. A mania do sucesso, o prazer de dominar, de aparecer, de mandar... já não valem. Vale agora o amor fiel, que assume a cruz, até o fim (cf. Homilias do Papa Francisco em sua Visita Pastoral à Coréia do Sul em 16 e 17 de agosto de 2014).
          Embora muitas pessoas não gostem de pensar e muito menos de falar no assunto, procuro sempre imaginar-me, quando vou a algum velório, no lugar daquela pessoa confinada num pedaço de madeira: “E se fosse eu que estivesse no lugar da pessoa falecida? Estaria preparado para encontrar-me diante de Deus? E como estaria? De mãos cheias ou vazias de boas obras e gestos de caridade? Renunciar a própria vida e consumir-se pelo anúncio do Reino de Deus é parecer como uma vela de cera, que quanto mais se derrete, maior e mais bela é a chama que ilumina e encanta o olhar de quem a contempla. Temos deixado o fogo abrasador de o Espírito Santo acender-nos como velas, luzes que iluminem e encantem a vida de nossos irmãos?
          É gratificante e enriquecedor a presença de tantos Leigos e Leigas, comprometidos com a dinâmica pastoral que edifica nossas Comunidades de Fé, Oração e Amor. Somos profundamente agradecidos a todos eles.
          A Palavra nos convida à docilidade daquilo que o Mestre espera de cada um: tanto dos ministros ordenados, como daqueles que não são ordenados, mas também Sacerdotes, por conta do Batismo que os adotou como herdeiros da Vocação ao Amor!
          Consigamos transformar em nossa vida pessoal e também pastoral: O Poder em Serviço; Os Bens (materiais e intelectuais) em Partilha; O Prestígio em Humildade, buscando viver nosso ministério, configurados com o Mestre, a partir da Conversão, Coerência e Bom Senso sempre mais conscientes! Superemos os “Pecados Paroquiais: Saudosismo, Milindrismo e Estrelismo”, abrindo-nos ao diferente, ao novo, como tanto nos sugere e pede nosso Projeto Missionário SIM – Ser Igreja em Missão, juntamente ao nosso Plano Arquidiocesano de Pastoral, e não por último os tão claros e insistentes apelos do Santo Padre o Papa Francisco!
          Ainda tem-se a sensação clara, de que tais apelos do Papa ainda não chegaram às bases de nossas Comunidades. Sua insistência numa Igreja mais simples, mais pobre, menos hipócrita e descomplicada, ao invés ainda demonstra muitas ostentações, arrogâncias, abusos de poder sejam eles eclesiais, políticos e comunitários. Não sei se o Papa ficaria feliz ao saber de nossas relações inter-eclesiais, entre pastores e rebanho. Ainda há muitos que surram suas ovelhas sem a tão insistente Igreja da Misericórdia sonhada pelo Papa. Outro fator muito evidente e feio é a desobediência reinante entre nós. Descuidar das orientações do Papa, reiteradas pelos Bispos e Superiores é mera hipocrisia. Quem sabe assumir nossa cruz, renunciar a nós mesmo, não seria uma conversão para valer, como lemos tão claramente no Documento nº 100 da CNBB: Comunidade de Comunidades: Uma Nova Paróquia – A Conversão Pastoral da Paróquia?
Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, nosso abraço,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Jr 20,7-9; Sl 62(63); Rm 12,1-2 e Mt 16,21-27).


           

domingo, 24 de agosto de 2014

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
DIA DOS CATEQUISTAS
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra
edificarei minha Igreja;
e os poderes das trevas
jamais poderão contra ela!” (Mt 16,18).

          “O Vigésimo Primeiro Domingo do Tempo Comum é o Domingo da profissão de fé de Simão Pedro! Mais uma vez animados pela presença do Ressuscitado em nossa caminhada de discípulos, somos convidados a proclamar a fé e a recordar o sentido de nossa missão.
          No exercício da missão, os discípulos de Jesus se vêem envoltos em situações delicadas que requerem muita fé. O anúncio da Boa-Nova do Reino exige dos discípulos e missionários convicção profunda, mas, em certos momentos, eles fraquejam e sentem-se impotentes.
          Conscientes de nossa pobreza e fragilidade, disponhamo-nos à graça de Deus que nos faz proclamar a mesma fé de Simão Pedro: ‘Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo’.
          Recordamos com carinho neste domingo, no espírito do Mês Vocacional, os vocacionados para os Ministérios e Serviços na Comunidade. Recordamos de modo ainda mais particular, os Catequistas em sua importante missão de educadores da fé.
          Os primeiros Catequistas e Educadores da Fé dos filhos, são os próprios pais. Ou deveriam ser. É o que prometem no dia do próprio Matrimônio e no dia em que levam os filhos ao Sacramento do Batismo. Porém, como a educação básica, também terceirizam a magnífica Educação da Fé dos Filhos aos sempre tão abnegados Catequistas! Como verdadeiras pérolas preciosas das Comunidades, merecem nossa mais profunda gratidão. Mesmo assim continuo pensando que, quem deveria ser evangelizado em nossos Planos de Catequese, são os Pais. Esses, por sua vez, deveriam ser capacitados para evangelizarem os filhos, em Família. Mas em nossa Cultura de Sobrevivência, isso ainda é um sonho longe de se tornar realidade.
          A palavra de Deus, deste domingo, é uma grande mina de grande valor. Podemos contemplá-la sob diferentes ângulos. Eliacim e Simão Pedro, por serem pessoas tementes a Deus, receberam uma missão, ou seja, as ‘chaves’. Na perspectiva da fé, qual seria a missão dos discípulos e missionários do Senhor em nossos dias?
          É interessante imaginar a cena, em que Jesus pergunta: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?’. Estamos em plena Campanha Eleitoral. Mal comparado, poderíamos imaginar que Jesus tenha perguntado como andam as pesquisas a seu respeito, assim como fazem os marqueteiros e assessores ou cabos eleitorais dos candidatos a algum serviço pela Nação. A resposta dos discípulos é bastante ‘espírita’: ‘Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas’ – reencarnação pura!
          Mas o que interessa mesmo a Jesus é saber se seus discípulos o estudaram o suficiente e faz a prova oral de sua Teologia: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’. Pedro se adianta não porque estudou mais do que os outros, mas porque o Pai lhe revelou, e faz a sua, a nossa, a da Igreja linda profissão de fé: ‘TU ÉS O MESSIAS, O FILHO DO DEUS VIVO’. A partir daí Jesus confia à Igreja, por meio dos discípulos, a missão da Unidade e reafirma o Sacramento da Reconciliação!
          Sem sombra de dúvida, o grande desafio da Igreja, dos discípulos e missionários é anunciar a verdade sobre Jesus Cristo; ter a coragem de proclamar ao povo, aos grupos humanos, às diferentes culturas e realidades quem é o Filho de Deus.
          A grande missão do discípulo e missionário é ‘proteger e alimentar a fé do povo de Deus e recordar também aos fiéis que, em virtude do seu batismo, são chamados a serem discípulos e missionários de Jesus Cristo [...] Em um período da história, caracterizado pela desordem generalizada que se propaga por novas turbulências sociais e políticas, (Estejamos atentos à Campanha Eleitoral atual), pela difusão de uma cultura distante e hostil à tradição cristã e pela emergência de variadas ofertas religiosas que tratam de responder à sua maneira, à sede de Deus que nossos povos manifestam’ (DAp, 10).
          Aos discípulos e missionários de Jesus, mais do que condenar e excluir, cabe acolher e perdoar, absolver e reconciliar em nome de Jesus Cristo. Na pessoa de Pedro, a Igreja é chamada a ser escola permanente de verdade e justiça, de perdão e reconciliação para construir uma paz autêntica.
          Todos nós, como pessoas de fé, na Igreja, somamos com Pedro como pequenas pedras. Por simples ou modestas que sejam estas pedras, todas devem estar densas do dom da fé. Aderindo a Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, somos parte do seu Corpo, a Igreja, contra a qual as forças do mal não triunfarão. Contudo, precisamos fortalecer a fé, para encarar os novos desafios, uma vez que estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e a identidade católica dos povos” (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I da CNBB, 2014, pp. 94-102).
            Não mutilemos, pois, este lindo Corpo que é a Igreja. Nós somos os membros e Jesus Cristo é a cabeça desse Corpo. Mesmo que me pense ser o dedinho do pé, escondido no sapato não tenho o direito de aleijar o Corpo, faltando com minha presença, compromisso, fidelidade e oração que une a Comunidade. Sejamos, finalmente, um Corpo bem sarado, malhado e atraente, a fim de que todos queiram unir-se a ele.
          Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel.
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Is 22,19-23; Sl 137(138); Rm 11,33-36 e Mt 16,13-20).