sexta-feira, 16 de março de 2012

HOMILIA PARA O QUARTO DOMINGO DA QUARESMA DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

O Quarto Domingo da Quaresma – Laetare – Domingo da Alegria, antecipa os deleites da celebração que a Quaresma nos convida a preparar: A festa da Páscoa do Senhor! Este domingo nos lembra que o rico tempo da Quaresma é uma grande proposta de renovação a partir da conversão e de nossa profissão de fé no Cristo vivo e ressuscitado no meio de nós! Eis a razão de nossa vida cristã, a motivação de nossa esperança num mundo mais alegre, fraterno, solidário e digno!
“É necessário, contudo, fazer uma opção clara e decidida por Jesus. Iluminados por ele e sustentados por seu espírito, esta opção nos torna capazes de cativar os que andam nas trevas e de desmascarar os projetos que nos mantém nas sombras da noite da injustiça e da pobreza.
Do livro das Crônicas concluímos: a história de amor entre Deus e o homem nunca termina como uma condenação. Tal como aconteceu com os israelitas, o homem que se afasta de Deus mete-se em complicações e desajustes e torna-se escravo dos ídolos. Deus, porém, nunca o abandona. Não há situações desastrosas nem forças resistentes que possam impedir o poder de seu amor misericordioso. Contudo, é grande a responsabilidade do homem que, ao negar-se a seguir o caminho de Deus, se condena e se destrói. Entretanto, nunca será o mal que prevalecerá, mas o amor de Deus.
Do evangelho de hoje colhemos um ensinamento: alcança a salvação quem tem a coragem de doar a sua vida, como fez Jesus. Aquele que não aceita doar a vida e escolhe o egoísmo, os prazeres e as satisfações, condena-se à morte e, portanto, destrói a própria vida.
A palavra de Jesus é dirigida a Nicodemos, um fariseu que veio procurá-lo numa noite, quase em segredo. Para os fariseus, que representam o grupo judeu mais importante da época, a justiça de Deus é clara. Deus torna justo e santo aquele que obedece à lei. O homem que aceita o ensinamento sobre a inteligência da lei tem, portanto, mais chance de se justificar. [...] Geralmente temos o hábito de mais justificar do que reconhecer nossos limites e, pior: procurar um culpado fora de nós, ao invés de reconhecê-lo nos porões de nossa própria consciência. Feio mesmo, é tentar esconder nossos pecados atrás dos defeitos dos outros. Os que se consideram prepotentemente mais espertos, ‘se demonstram fortes diante dos fracos, embora sejam fracos diante dos fortes...”. Sempre penso que misericórdia + justiça são = ao AMOR! [...].
Jesus que freqüenta os pecadores, dá uma última oportunidade ao desonesto (Zaqueu), ao impuro (a mulher adúltera) ou mesmo ao bandido (o ladrão). Aqueles que não teriam tido nenhuma ocasião de conversão encontram Jesus. Eles crêem. Eles têm fé na ternura de Deus. Experimentaram toda a reprovação de seu meio social. Ouviram a palavra espontânea que condena sem apelação. E depois... Jesus veio. Já não esperavam nada da mediocridade humana. De repente, a fé em Jesus transformou a vida deles. [...] Eis a grande notícia do Domingo da Alegria!
Na carta aos Efésios, aparece claramente que não é o homem a causa de sua salvação. O ser humano não se salva por seus méritos e obras. As boas obras são uma resposta ao amor e à ação de Deus. São sinais que indicam que a graça de Deus conseguiu penetrar e produzir frutos no coração do homem e da comunidade. Nós nada fazemos para merecer a salvação. As nossas ações maldosas nos trazem a condenação. Deus, porém, nos ama e salva gratuitamente” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB n. 20, pp. 48-55).

A Palavra de Deus deste Domingo Laetare, que nos aproxima das alegrias pascais, é um profundo convite de conversão, resgatando as principais características da criança, que geralmente perdemos quando nos tornamos adultos:

Desejando-lhes abençoada Semana da Alegria, com ternura e gratidão, meu abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler 2 Cr 36,14-16.19-23; Sl 136(137); Ef 2,4-10 e Jo 3,14-21)

A PÁSCOA ME TRAZ MAIS PERTO DE TI, MEU DEUS !

A PÁSCOA ME TRAZ MAIS PERTO DE TI, MEU DEUS !

A Páscoa me faz ser ponte,
porque aproxima as pessoas
mais perto de ti, meu Deus!

A Páscoa remete meu olhar
a um novo horizonte de uma
nova luz e descreve-me
mais perto de ti, meu Deus!


A Páscoa silencia as inseguranças
florindo minhas esperanças,
conduzindo-memais perto de ti,
meu Deus!

A Páscoa supera a dor de minhas
decepções, transformando-as
em soluções porque me deixa
mais perto de ti, meu Deus!

A Páscoa eleva o olhar dos porões de
minha intimidade, convidando-me para
o alto: mais perto de ti, meus Deus!

A Páscoa me conduz do deserto das ilusões
à luz das emoções, por estar mais perto
de ti, meu Deus!

A Páscoa desabrocha meu
coração machucado pelo pecado,
e o faz florescer, mais perto
de ti, meu Deus!

A Páscoa reveste minha
fraqueza de novo ânimo, porque
me deixa em teu colo: mais perto
de ti, meu Deus!

A Páscoa é o beijo de ternura,
que só experimento,
mais perto de ti, meu Deus!

Pe .Gilberto Kasper

ESTE MOÇO SÓ PODE SER UM SANTO



Pe. Gilberto Kasper
pe.kasper@gmail.com


Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

Uma das visitas a enfermos que, ao longo de meus 22 anos de ministério ordenado, mais me marcou, foi a uma pessoa acamada há cinqüenta e sete anos. Não sabia de sua condição física. Ao entrar no quarto onde o enfermo se encontrava, olhando-o bem nos olhos e vendo um semblante sereno e sorriso nos lábios, pensei: Este moço só pode ser um santo! Nem bem havia terminado meu pensamento, quando a irmã que o cuida disse em voz alta atrás de mim: “Padre, este é meu irmão, que eu cuido há cinqüenta e sete anos nesta cama. Ele é um santo!”.
A alegria do moço, estampada em seu rosto, sua gratidão pela visita do sacerdote, edificou ainda mais meu ministério. Confirmou o que sempre soube e busquei viver por onde passei. Dar especial atenção e dispensar carinho sem medidas aos enfermos, que fazem de seus leitos de dor e de seus limites físicos, o verdadeiro altar do sacrifício do Senhor!
A Campanha da Fraternidade deste ano trata da Saúde Pública sim, mas também é um profundo convite aos ministros ordenados a darem preferência à visita aos doentes, levando-lhes os Sacramentos da Reconciliação e da Unção dos Enfermos, que só eles podem dispensar. Nosso Arcebispo Metropolitano, Dom Joviano de Lima Júnior, sss certo dia escreveu-me que “A visita aos enfermos edifica a vida do Presbítero!”. Sempre procurei incentivar a Pastoral dos Enfermos das Comunidades por onde trabalhei, e os Agentes da Pastoral da Saúde são uma das grandes riquezas de nossa Igreja. Eles abrem o caminho, preparando os enfermos e suas famílias, para a sempre tão esperada “Visita do Padre”. Mas levam o Viático (Jesus em viagem) semanalmente àqueles que são um dos mais eficazes remédios para a santificação da Comunidade, a começar do próprio Padre.
Depois da visita ao Moço que me pareceu santo, porque agradecido a Deus pelo dom vida, mesmo que inerte por cinqüenta e sete anos numa cama, passei a sentir profunda vergonha pelas vezes em que reclamei da vida. Procurei, a partir de então, a exemplo do Moço a agradecer todos os dias o dom gratuito da saúde! Que esta Campanha da Fraternidade nos ajude a sermos sempre agradecidos pela Saúde e a zelar por ela cada dia mais. “Que a saúde se difunda sobre a terra!” (cf. Eclo 38,3).

sexta-feira, 9 de março de 2012

HOMILIA PARA O TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

A Palavra de Deus do Terceiro Domingo da Quaresma nos ajudará a revermos a pureza de nossa relação com Deus. A relação pessoal e a relação com Deus, seja através das leis que administram a vivência de nossa fé, seja através da fé transformada em obras, logo, nossa relação com Deus por intermédio dos irmãos, seja à luz da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, cuja Páscoa preparamos!
A página do Livro do Êxodo nos apresenta o Decálogo, a Lei Mosaica, os Mandamentos como bússola orientadora de caminharmos em direção ao nosso fim último que nada mais é do que a felicidade eterna! A lei torna-se necessária na medida em que a ética se distancia do comportamento humano. O Decálogo é resumido, por Jesus, num único mandamento: o do Amor! Jesus não subestima os Dez Mandamentos, mas os enriquece. Quem ama a Deus e ao próximo como a si mesmo, acolhe o Decálogo com muita simplicidade, sem escrúpulos, descomplicadamente. Para muitos, os Dez Mandamentos são ainda um “peso”, ou então compreendidos como meras proibições ou castigo. Já para quem desenvolve sua capacidade de amar um amor com sabor divino, os Mandamentos são um modo de administrar bem o dom precioso da vida.
Jesus vai além dos Mandamentos e se irrita quando a lei é colocada acima do amor. Pior fica, quando se utilizam do Templo, da Religião, de iniciativas Pastorais que sacrificam as pessoas, favorecendo lucros indecentes. Não penso que o chicote utilizado por Jesus, tivesse os vendilhões como alvo, mas a estrutura da instituição religiosa de seu tempo, que se utilizava do Templo e do Culto para angariar riquezas. Há uma grande diferença entre manter o Templo, zelar por ele, conservá-lo e ampliá-lo, do que faziam as autoridades religiosas de Jerusalém. O não cumprimento dos preceitos implicava na exclusão do povo simples. Todos esmeravam-se por cumprir o que estava prescrito. O povo viajava meses para a celebração da páscoa judaica, e naturalmente necessitava de “suporte” em torno do Templo para ali adorar a Javé. A exploração do simplesmente necessário foi que irritou a Jesus e o fez expulsar os vendilhões do Templo. Impor sacrifícios descabidos sobre os ombros do povo, exigir o cumprimento de leis simplesmente, não agrada o coração de Deus. Jesus tenta demonstrar que o amor supera e deve estar sempre acima da lei!
“Toda celebração da Eucaristia é um divisor de águas. Nela vivemos a tensão entre o culto perfeito e o culto baseado nos interesses pessoais e mesquinhos. O evangelho fala da substituição do templo antigo pelo novo. Nós já somos o novo templo, contudo, a cada momento, precisamos ser purificados de tudo aquilo que não nos deixa oferecer sacrifícios agradáveis ao Senhor. Daí a importância da escuta da Palavra de Deus, da avaliação das nossas práticas, do afinar-se com os desígnios do Senhor e do entrar no espírito do culto em espírito e verdade. A liturgia transpira do começo ao fim, o sentido e a espiritualidade do culto prestado por Cristo ao Pai.
Importa nos deixarmos impregnar por esta liturgia e fazer da vida um culto perfeito. Na celebração, bebemos na fonte que é a misericórdia de Deus Pai. Nele aprendemos a confessar as nossas faltas. Na liturgia importa cantar tudo o que o Senhor fez por nós, antes e depois de ter proposto o código da aliança. A oração eucarística canta exatamente isso, tendo como centro o memorial da páscoa de Cristo.
Na fé, a cruz parece satisfazer e superar as expectativas humanas. Enviar seu filho para sofrer a morte por amor desafia todo pensamento humano. Nesta Quaresma, devemos ser mais solidários entre nós e, certamente, fazer uma loucura como a da cruz, um gesto insensato em benefício da justiça para com os pobres.
Estamos em plena Campanha da Fraternidade. Tantas realidades ligadas ao seu tema poderíamos trazer presentes... Poderíamos lembrar a dependência química do álcool que profana o templo que é o nosso corpo. Diz o Texto Base:
‘A dependência do álcool é um dos graves problemas de saúde pública brasileiro. Hoje, 18% da população adulta consomem álcool em excesso. O uso do álcool, além de causar sérios e irreversíveis danos a vários órgãos do corpo, está também relacionado a cerca de 60% dos acidentes de trânsito e a 70% das mortes violentas. Segundo o Documento de Aparecida, o problema da droga é como mancha de óleo que invade tudo. Não reconhece fronteiras, nem geográficas, nem humanas. Ataca igualmente países ricos e pobres, crianças, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres. A Igreja não pode permanecer indiferente diante desse flagelo que está destruindo a humanidade, especialmente as novas gerações’.
Celebrar a Eucaristia, memória da páscoa de Cristo, significa entrar de corpo e alma na liturgia que ele oferece eternamente ao Pai. Significa tornar-se discípulo missionário e adorador perfeito e privilegiado” (cf. Roteiros Homiléticos da Quaresma de 2012 da CNBB, n. 20, pp. 41-47).


São Paulo, em sua Primeira Carta aos Coríntios lembra e atualiza essa questão também a nós, de que não devemos correr atrás do espetaculoso, mas procurar encontra o espetacular na própria cruz de Cristo. É dele que emana todo o sentido de nossa fé e a esperança de nossa salvação. Cristo não espera “coisas” de nós, Ele não precisa delas; mas espera que nos amemos, seguindo o Seu exemplo. Saibamos ser misericordiosos uns para com os outros. Mas também solidários e comprometidos com a promoção da dignidade humana.
Oxalá consigamos passar a Quaresma esforçando-nos por não falar nada mal de ninguém, bem como reservar os frutos de nossos exercícios quaresmais de penitência, como o jejum, a abstinência e outros, para o grande dia da Coleta da Solidariedade, no Domingo de Ramos!

Desejando-lhes abençoada semana, com ternura e gratidão, o abraço sempre fiel e amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Ex 20,1-17; Sl 18(19); 1 Cor 1,22-25 e Jo 2,13-25)