quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A CONCEPÇÃO DA VIDA HUMANA

A CONCEPÇÃO DA VIDA HUMANA Pe. Gilberto Kasper pe.kasper@gmail.com Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista. O problema básico, que envolve a saúde, é a concepção que se tem da vida humana. Alguém pode desqualificar minhas considerações alegando que eu não entendo de medicina, ou seja, que eu não tenho diploma médico, enquanto eu posso desqualificá-lo, com a mesma razão, garantindo que ele não entende de vida humana. Isso equivale a dizer que seu diploma médico não o credencia a pronunciar-se sobre a natureza do ser humano. O Papa Paulo VI, retratando uma História de dois mil anos, assegurou a todo o mundo, num discurso à ONU, que a Igreja é mestra em humanidade. Tem algo importante e indispensável a dizer. Não se pode tratar de medicina sem uma concepção a respeito do homem. Mata-se muito mais o ser humano pela ideia, que pela violência com que se elimina sua vida terrestre. É sabido que, para se pronunciar acerca das qualidades gastronômicas de um bolo, não é preciso saber fazê-lo, como para degustar um bom vinho e se pronunciar a respeito dele, não se exige que se esteja em condições de fabricá-lo. Não me cabe, nem me arrisco, dar receitas para as diferentes doenças, - apesar de o provérbio garantir que de poeta e médico todos tem um pouco – mas não posso omitir-me, como pessoa humana e, principalmente, como ministro ordenado para um rebanho, cujos cuidados me foram confiados por Cristo, de me pronunciar sobre a situação geral da saúde e sobre as medidas que neste campo se tomam. O primeiro questionamento, que me incumbe fazer, é que a nossa farmacologia está baseada na concepção de que o homem não é mais que um ser natural, composto dos mesmos elementos, que constam nos fármacos. Impressionou-me um artigo que alguém, que se apresentou como médico, escreveu por ocasião da morte do Papa João Paulo II. Estranhava ele as homenagens a esse homem que, segundo afirmava, não era mais que um dos tantos chefes de religiões, existentes no mundo, e que ele não era mais que um composto de células, que se encontravam em todos os seres humanos de modo igual. Ele dizia, com palavras científicas, o que nós costumamos expressar dizendo que ele era apenas “carne e osso”. A visão antropológica cristã rebate essa concepção e garante duas vertentes básicas: vê o ser humano, ao mesmo tempo, a partir da natureza e a partir de Deus. É, em outras palavras, um ser natural aberto à transcendência. Pondo em discussão a categoria de natureza, retoma-se e aprofunda-se, hoje, a questão da bioética e da biotecnologia. O ser humano é e deve ser visto em sua dupla referência: como imagem e semelhança de Deus e, como ser vivo, ligado à matéria. No momento em que eliminarmos a dimensão da transcendência, a dimensão pessoal do ser humano e o próprio conceito de pessoa desaparecem.

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