domingo, 28 de julho de 2013

HOMILIA PARA O DÉCIMO-SÉTIMO DOMINGO COMUM



Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Senhor, ensina-nos a rezar,
como também João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1b).

          “Temos todos um Pai comum. Foi Jesus que nos ensinou a chamar Deus de Pai, nosso Pai, o que foi ousado e escandalizou muitos religiosos de então. Aparentava ser verdadeira blasfêmia. Afinal de contas ‘pai’ tem a ver com ‘parente’, e parente mais próximo. Portanto, a ousadia de Jesus de chamar a Deus de pai soava como se ele dissesse que Deus é nosso ‘parente’ mais próximo e que nós somos seus filhos e filhas: existe um ‘parentesco’ entre Deus e nós. E não é assim? Fomos, de fato, criados ‘à imagem e semelhança de Deus’ (Gn 1,27) e agora somos renascidos em Cristo.
          Gosto de pensar: queremos uma noção mais próxima de como Deus é? Basta olhar para o rosto do nosso semelhante. Somos semelhantes ao nosso Criador. Não somos deuses, mas parecidos com Deus! Muitas vezes agimos uns sobre os outros, como se fôssemos seus deuses, ou seus donos. O namorado diz para sua namorada: ‘eu te adoro!’ e vice-versa. Nós nos adoramos não como deuses, mas como semelhantes e isso nos torna ainda mais lindos. Isso nos torna Anjos uns dos outros! Por conta disso, também penso que não existem pessoas feias. As pessoas foram criadas lindas, porque à imagem e semelhança de Deus. Mas elas se fazem feias, na medida em que se distanciam desse ‘evento’ ou ‘parentesco’, cuja novidade nos é trazida pela Palavra proclamada neste Décimo-Sétimo Domingo Comum do Ano Litúrgico!
          Jesus resgatou a dignidade que havíamos perdido e voltamos a ser família de Deus, povo de Deus. É nesta experiência de vida nova que nos unimos, de maneira especial, aos milhares de jovens na Jornada Mundial da Juventude, que neste domingo está se encerrando. Que o Espírito Santo de Deus ilumine a juventude de hoje para que, iluminada pela Palavra de Deus, sinta-se fortalecida para o testemunho da fé em Cristo.
          ‘Na eucaristia descobrimos o rosto de Deus nosso Pai, que sempre se mostra favorável quando o invocamos em nossas necessidades. O tema da Jornada Mundial da Juventude que reuniu desde o dia 23 de julho milhares de jovens no Rio de Janeiro, com a presença de nosso amado Papa Francisco, é: ‘Ide e fazei discípulos entre todas as nações’ (Mt 28,19)’ e nos motiva a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo, a serviço do evangelho e do reino de Deus.
          Da mesma forma que Abraão, vamos nos pôr na presença de Deus, que quer nos comunicar sua palavra de salvação. Ele, que deu vida nova no batismo, agora nos dá a conhecer seu rosto e seu amor.
          A oração insistente e sincera do justo em favor do povo chega ao coração de Deus. Jesus nos ensina a pedir com insistência o que é fundamental na vida. Pelo batismo morremos e ressuscitamos com Cristo e nos tornamos novas criaturas. Já a oração eucarística, como ação de graças, súplica e intercessão universal, possui os múltiplos aspectos da oração perfeita de Cristo na cruz’ (cf. Liturgia Diária de Julho de 2013 da Paulus, pp. 83-86).
          Existem cristãos que, julgando-se esclarecidos, afirmam que as orações do nosso povo são muito egoístas, pois são quase sempre orações de pedido. Geralmente somos mais pidões do que agradecidos, também em nosso modo de rezar, até quando o fazemos conscientemente, como diálogo com Deus! Interessante que a Palavra deste Domingo acentua o contrário: é importante pedir, e até insistir no pedido. Abraão com seus incansáveis pedidos quase salvou as cidades de Sodoma e Gomorra. Infelizmente, as cidades eram ruins demais. Jesus, por seu turno, ensina aos discípulos o Pai-nosso, uma oração de pedido. O Pai-nosso pede inicialmente que a vontade de Deus seja feita. Ora, uma vez que rezamos em harmonia com a vontade e o desejo de Deus, podemos pedir bastante. O que não me parece justo é rezarmos para que a vontade seja feita, desde que coincida com a nossa. Precisamos antes, discernir qual é a vontade de Deus para conosco. Gostei muito, quando na sua homilia de posse, nosso Arcebispo Metropolitano, Dom Moacir Silva, pediu-nos que rezássemos por ele. ‘Rezem por mim. Rezem para que eu não atrapalhe a graça de Deus em meu ministério...’. Quanta coragem e ousadia a de nosso amado Pastor! Mostrou-se um Homem de Deus, que quer sempre discernir a vontade e a graça divinas de Deus em sua vida.
          Será a oração em forma de pedido uma forma de oração mais egoísta que a meditação, a louvação, o agradecimento, a adoração? Parece que não! Na verdade, agradecer é a outra face do pedir. Quem agradece, gostou. Por que não pedir então? É reconhecer a bondade do doador! Como o frei que, depois de laudo almoço na casa de uma benfeitora, testemunhou sua gratidão com estas palavras: ‘Senhora, não sei como agradecer... será que posso repetir aquela gostosa sobremesa?’.
          De acordo com o espírito do Pai-nosso, devemos pedir antes de tudo a realização daquilo que Deus deseja: sua vontade, seu Reino. Ora, uma vez assentada esta base, pode-se pedir – com toda a simplicidade – o pão de cada dia, saúde, vida e todos os demais dons que Deus nos prepara. Inclusive, o perdão de nossas faltas. Só não se deve pedir a Deus o que Deus não pode desejar: a satisfação de nosso egoísmo. E sempre se deve lembrar que Deus sabe melhor do que nós o que nos convém. Podemos insistir naquilo que achamos sinceramente nosso bem... mas Deus sabe melhor.
          É importante pedir, pois pedir também compromete! Depois de ter pedido, a gente já não pode dizer: ‘Não pedi!’. Comprometer-nos com Deus e com aquilo que pedimos. Não é como no supermercado, onde você entra, olha e sai sem comprar. Assim as preces dos fiéis, na celebração da comunidade, devem ter sentido de compromisso: devemos querer mesmo que elas se realizem, e nos oferecemos a Deus para colaborar na realização daquilo que pedimos. Pedir é comprometer-se. Imaginemos Deus ouvindo nossas preces, como esta: ‘Perdoai-nos assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...’ Se não perdoar o meu irmão, como peço a Deus que me perdoe? Se pedimos a Deus saúde, não é para gozar egoisticamente a vida, mas para servir melhor. ‘Quem não vive para servir, não serve para viver!’. Se pedimos paz, não é para sermos deixados em paz, mas para nos dedicarmos à comunhão fraterna. Se pedimos por nossos irmãos e irmãs mais pobres, é porque queremos ajudá-los efetivamente. Importa saber como pedimos (cf. Tg 4,3) (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I de 2013 da CNBB, pp. 86-92).
          Saibamos rezar com mais consciência e fé madura, a oração que o Senhor nos ensinou, ao pedido de seus discípulos: O Pai-nosso! São sete pedidos. Será que nós, ao rezamos esta belíssima oração, temos plena consciência do que nela estamos pedindo? E se Deus realmente ouvisse nossos pedidos, como seria nossa vida, nossas relações com nossos semelhantes, aqueles que nos permitem “uma noção do rosto de Deus”?
          Sejam todos sempre abençoados. Com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Gn 18,20-32; Sl 137(138); Cl 2,12-14 e Lc 11,1-13).
         


domingo, 21 de julho de 2013

HOMILIA PARA O DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM


Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
Felizes os que observam a palavra do Senhor
de reto coração e que produzem muitos frutos,
até o fim perseverantes!” (Lc 8,15).

          “Somos hóspedes de uma casa. Mais que hóspedes, somos já parte da família. Nossa casa é esta: este espaço físico e humano que nos abriga, esta comunidade cristã da qual fazemos parte, esta assembleia na qual vivemos uma experiência de fé. Isto é, acolhidos por Deus na pessoa de cada um de nós, aqui reunidos, sentimo-nos um corpo: corpo eclesial de Cristo.
          Nesta experiência de povo de Deus reunido, nos unimos desde já aos milhares de jovens que, nesta semana, se reúnem para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Que o Espírito Santo de Deus ilumine este evento e a todos fortaleça para o testemunho da fé em Cristo. Que saibamos ouvir, como Maria ouvia Jesus, os ensinamentos de nosso amado Papa Francisco! Não só os Jovens, mas todos, saibamos escolher a melhor parte!
          ‘Deus hoje nos acolhe em sua casa e nos convida a sentar aos pés de Jesus para escutá-lo e participar do banquete eucarístico que ele nos oferece. Somos desafiados pelo evangelho a ter o coração hospitaleiro de Maria e as mãos laboriosas de Marta.
          As leituras (deste domingo) nos convidam à abertura ao projeto de Deus e à hospitalidade, atitudes que revelam a presença do Senhor em nossa vida.
          A hospitalidade de Abraão é retribuída com a promessa do nascimento do filho. Acolher Jesus e sua proposta de vida é o melhor que podemos fazer. O evangelizador enfrenta com otimismo e esperança o sofrimento decorrente do empenho pelo bem da comunidade. A celebração eucarística também é uma ação de hospitalidade na qual Deus nos acolhe e nós acolhemos a Cristo e dele nos alimentamos’ (cf. Liturgia Diária de Julho de 2013 da Paulus, pp. 66-69).
          Um grande mal em nossa sociedade, e também na Igreja, é o ativismo, a falta de disposição para aprofundar o essencial, sob o pretexto de tarefas urgentes.
          Jesus é um exemplo para todos nós. Sua pessoa está prioritária e permanentemente focada no modo de ser do Pai. Pelo hábito desta escuta é que ele desenvolveu uma atitude de serena e saudável acolhida de tudo e de todos. É a partir daí que ‘Jesus observa a Marta que ela anda ocupada e preocupada com muitas coisas, enquanto uma só é necessária. Essa observação não é uma recusa da hospitalidade, mas indica uma escala de valores: a melhor parte é a que Maria escolheu! O que esta faz é fundamental e indispensável: escutar. O resto (as correrias pastorais, as reuniões) é importante, mas deve ter fundamento no escutar. Jesus censura Marta não porque ela cuida da cozinha, mas porque quer tirar Maria do escutar, para fazê-la entrar no ritmo de suas próprias ocupações. Marta não conhecia a escala de valores de Jesus.
          Podemos perceber, através da Carta aos Colossenses de hoje, que foi da identificação profunda com Cristo que Paulo tirou a força para seu surpreendente apostolado. Gente ocupada é o que menos falta. Mas sabemos muito bem que toda essa ocupação não tira em torno daquilo que é fundamental. Dá até pena de ver certas pessoas complicarem sua vida com mil coisas de que dizem que simplificam a vida. Ao lado delas encontramos o pobre, o lavrador, o índio, vivendo uma vida simples, mas com muito mais conteúdo e, sobretudo, com um coração sensível e solidário.
          A exemplo do nosso mestre Jesus, importa acolher (a Deus, a Jesus, aos outros) em primeiro lugar no coração. Só então as demais ações terão sentido. Isso vale na vida pessoal e também na vida comunitária. Comunidades que giram exclusivamente em torno de preocupações e reivindicações materiais acabam esvaziando-se, caem em brigas de personalismo e ambição. Mas comunidades que primeiro acolhem com carinho a palavra de Jesus num coração disposto saberão desenvolver os projetos certos e por a palavra de Jesus em prática. ‘Buscai primeiro o Reino de Deus...’.
          Que Deus nos ajude a vivermos este espírito do Evangelho trazido por Jesus. Que pela força da Eucaristia, na qual o Pai nos acolhe como corpo eclesial de Cristo, possamos viver a atitude de Maria para que, empenhados como Marta, mas conectados ao único e necessário, que é Palavra reveladora do Pai, trabalhemos com serenidade e paz pelo bem da humanidade” (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I de 2013 da CNBB, pp. 79-85).
          A Palavra de Deus  deste domingo nos coloca diante da Hospitalidade e de nossa Espiritualidade Eclesial: Ministros Ordenados, Agentes de Pastoral, nossas Comunidades são reconhecidos como bons cristãos por causa da hospitalidade e da espiritualidade ou por causa das intermináveis atividades, como construções materiais? Como é linda a Leitura Orante da Palavra que iniciam nossas reuniões, nossos encontros e atividades! O Padre Pitico nos tem incentivado, como grande Responsável pela Prioridade de nosso Plano Arquidiocesano de Pastoral, A Formação de Líderes, a ouvirmos antes de tudo o que a Palavra de Deus (em outras palavras, o próprio Mestre Jesus) tem a nos dizer!?! Não poucas vezes nos envolvemos com atividades que nem nos dizem respeito como: decoração de Templos, coordenação de Quermesses, sempre preocupados em arrecadar recursos financeiros para a manutenção de nossas Paróquias, que deveriam ser tarefas dos Conselhos constituídos e não dos Presbíteros. O que não podemos jamais deixar de lado, é a mais rica espiritualidade na administração dos Sacramentos que só os Ministros ordenados podem presidir: a Reconciliação, Unção dos Enfermos e a Celebração Eucarística. Para todas as demais atividades, podemos formar Líderes de Lideranças em nossas Comunidades. E que também esses desempenhem suas atividades pastorais e sociais, sempre e cada vez mais à luz da escuta de Jesus, como fez Maria, escolhendo assim a melhor parte.
          Finalmente poderíamos nos perguntar: sendo o tempo uma questão de prioridade, quais são nossas prioridades no hodierno do exercício de nossa missão eclesial e do nosso ministério? Rezamos o suficiente todos os dias? Somos fiéis, sentados aos pés de Jesus, e justos, em nossas decisões? Nossas Comunidades rezam ou cozinham melhor? Se é que sabem o que pretendo refletir, a começar de meu próprio ministério?
          Sejam muito abençoados. Com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Padre Gilberto Kasper
(Ler Gn 18,1-10; Sl 14 (15); Cl 1,24-28 e Lc 10,38-42).
         

          

sábado, 13 de julho de 2013

HOMILIA PARA O DÉCIMO-QUINTO DOMINGO COMUM


Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Contemplar, justificado, a vossa face;
e serei saciado quando se manifestar a vossa glória” (Sl 16,15).

          “Deus se fez próximo de nós. Revelou-se profundamente humano. Misericordioso, isto é: coração totalmente voltado para o mísero (=misericordioso). Tão próximo de nós que, na pessoa de seu filho Jesus, podemos afirmar: ‘Só Deus é humano’. Porque Deus é assim, é que nos reunimos no Dia do Senhor, o Domingo: para dele assimilarmos o verdadeiro espírito de humanidade. Tanto sua Palavra como o exemplo de doação, representado pelo Corpo entregue e pelo Sangue derramado de Jesus – agora sob as espécies de pão e vinho -, são para nós a principal fonte de aprendizado do que significa ser humano, profundamente humano, a fim de que todos tenham vida, e vida em abundância.
          ‘Imagem de Deus e revelador do rosto misericordioso do Pai, Jesus neste domingo nos mostra o caminho da vida eterna: não só conhecer os mandamentos, mas também vivenciá-los, assumindo as atitudes do bom samaritano. A Eucaristia deste domingo abra nosso coração à misericórdia e à compaixão para com as pessoas caídas à beira do caminho.
          A Palavra de Deus está ao nosso alcance: não é proposta muito difícil de ser assumida e vivida, pois requer apenas o amor para se transformar em gesto de misericórdia. Vamos acolhê-la no coração, para que nos torne próximos de toda pessoa necessitada.
          A vivência do mandamento de Deus não está fora de nossas possibilidades. O autêntico amor nos torna próximos dos pobres e sofredores. Jesus Cristo é a plenitude do divino no humano. Cristo, o bom samaritano, faz-se mais próximo de nós, tornando-se nosso alimento e revelando o amor misericordioso do Pai celeste” (cf. Liturgia Diária de Julho de 2013 da Paulus, pp. 49-52).
          Quem faz a experiência de estar mais ‘próximo’ de Deus ou, inversamente, faz a experiência de sentir Deus mais ‘próximo’ de si? Aquele e aquela – seja lá quem for; não importando raça ou religião – que se faz ‘próximo’ do humano, e do humano mais arrebentado. O próprio Jesus, por sua vida, morte-ressurreição e dom do Espírito, viveu e vive esta experiência vital divinamente. E pensar que nós somos discípulos e discípulas dele!...
          Jesus não respondeu diretamente ao mestre da lei, porque a questão não é descobrir quem é e quem não é próximo. Coração generoso se torna próximo de qualquer um que precisa; a melhor maneira de ter amigos é ser amigo. A questão também não é teórica, mas prática. Na prática esquecemos a parábola de Jesus e fazemos como o sacerdote e o levita: afastamo-nos do necessitado, mesmo se pertence à nossa comunidade, e não ‘nos aproximamos’ dele. Tornar-se próximo é ser solidário. Somos solidários com os que vivem na margem da estrada de nossa sociedade? Mesmo quando damos uma esmola a um coitado, não é para nos desviarmos dele? ‘Vai e faze a mesma coisa’... Imitar o samaritano exige solidariedade, assumir a vida do outro, não se livrar dele. Torná-lo um irmão, pois este é o sentido verdadeiro da palavra ‘próximo’. Só assim podemos fazer a mais verdadeira ‘experiência de Deus’, senti-lo ‘próximo’ de nós e sentir-nos ‘próximos’ dele.
          Existem Bispos e Padres que, no final da Missa, costumam dirigir-se à porta da Igreja para cumprimentar pessoalmente as pessoas que vão saindo, desejando-lhes um bom domingo, uma ótima semana, bênçãos para a família, para o trabalho, para os estudos etc. Afinal, a celebração continua também na vida... Assim se estabelecem laços afetivos e de aproximação entre o pastor e os fiéis, e entre os próprios fiéis entre si. Se houver possibilidade, é aconselhável e pastoralmente muito eficiente, que se adote tal procedimento nas comunidades. [...]
          [...] A reitoria da Igreja Santo Antoninho é pequenina. Costumo omitir o Abraço da Paz após a Oração do Pai Nosso. Sempre achei aquele momento inoportuno e de certa forma, um tanto forçado, quando não falso. Prefiro deixá-lo para o final da Missa. Até porque valorizo muito os momentos de “silêncio para interiorização pessoal”: no Rito Penitencial, Após as Leituras Proclamadas, Após a Homilia, no Momento indicado para o Abraço da Paz e após a Comunhão. Quando cheguei, há cinco anos e meio, o Povo que frequenta nossa amada Igrejinha, aproveitava para colocar as novidades em dia. Mais parecia uma feira do que um Templo. Sugeri que antes das Missas haja silêncio no interior da Igreja. As saudações de chegada acontecem fora da Igreja, no Átrio. Colocamos um fundo musical, permitindo a oportunidade das pessoas prepararem-se bem para a Celebração. Já no canto da dispersão, ao final das celebrações, todos se abraçam e desejam-se mutuamente a paz. Este sim parece ser um abraço espontâneo, verdadeiro. Eu fico à porta da saída e quem deseja passa por mim e também nos abraçamos desejando-nos todo bem e toda paz. As pessoas gostam e cobram quando isso não é possível. É, também, compreensível que nem sempre tal gesto é possível. No meu caso funciona bem, por sermos poucos. Praticamente todos se conhecem, o que enriquece ainda mais a celebração. Celebramos próximos uns dos outros, quase que “apertando-nos” na pequenina Santo Antoninho! [...]
          Lembramos ainda, de modo muito especial, toda a movimentação na preparação da Jornada Mundial da Juventude, a se realizar entre os dias 23 e 28 deste mês, com a maravilhosa presença do amado Papa Francisco, O Papa da Ternura! Que o Espírito Santo de Deus e seu santo modo de operar iluminem a todos e todas do nosso Brasil e do mundo inteiro, a fim de que se abra para a juventude as melhores possibilidades de um mundo novo, em que brilhe a sabedoria vinda do alto, produzindo a justiça e a paz do Reino de Deus” (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I de 2013 da CNBB, pp. 73-78).
            Finalmente, a Palavra de Deus deste Décimo Quinto Domingo Comum nos propõe o “próximo” à luz da Parábola do Bom Samaritano! Trata-se de um “Próximo machucado, surrado, enxotado, incompreendido, engolido pelas drogas e alcoolismo, desemprego, abandono famíliar, envelhecido, enfermo mal servido, proveniente de famílias desestruturadas”. Nossas comunidades são realmente configuradas com o Bom Samaritano? Ou nos identificamos mais com o sacerdote e o levita que olham para o machucado e saem correndo para o mero cumprimento de seus preceitos e compromissos outros? Confesso que não consigo entender a presença real de Jesus Cristo no coração de um presbítero que não cumprimenta seu irmão por bobagens, ou até mesmo questões mais sérias. Já imaginaram um Sacerdote concelebrando com seu “próximo” virando-lhe a cara? Como um coração desses terá lugar para Jesus, se sua misericórdia não consegue acolher um simples irmão nem mais e nem menos importante; nem melhor e muito menos pior do que o próprio arrogante e prepotente “juiz não constituído pelo Evangelho” deste domingo do Bom Samaritano? E isso se estende também às nossas Comunidades: Pastorais, Movimentos, Serviços, Comissões, Conselhos que realizam obras magníficas para serem vistas pelos outros, mas além de excluir os que vivem em “situações irregulares ou desumanas”, ainda pisam sobre eles e os difamam? Que não deixemos escorrer pelas mãos esta rica oportunidade de conversão, coerência e bom sendo, fazendo em nossas relações humanas a experiência da mais verdadeira misericórdia!
          Desejando-lhes bênçãos e paz, com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Padre Gilberto Kasper
(Ler Dt 30,10-14; Sl 68(69); Cl 1,15-20 e Lc 10,25-37).



sábado, 6 de julho de 2013

HOMILIA PARA O DÉCIMO QUARTO DOMINGO COMUM


Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Provai e vede quão suave é o Senhor!
Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!”


            A Igreja de Jesus Cristo é missionária, discípula e ministerial, ou não é a Igreja de Jesus Cristo. Todo cristão, só é realmente cristão, se for empenhado no contexto da conceitualização desta Igreja! Ser outro Cristo é sair pelo mundo cheirando à paz! Temos acompanhado com grande esperança as manifestações por um Brasil melhor: mais justo, mais honesto, menos corrupto, que vise a promoção da dignidade de seus cidadãos. Oxalá continuemos promovendo manifestações parecidas, mostrando àqueles que elegemos, que não somos cegos, surdos e nem “marionetes” nas demagogias e falcatruas políticas dos demasiados partidos políticos que fazem escorrer pelos dedos, os volumosos impostos pagos por brasileiros tão subestimados e maltratados por educação improvisada, saúde sucateada e necessidades básicas inflacionadas. Maquiar a Economia é no mínimo diabólico. Desde a década de 1980, mais precisamente das “Diretas Já” ouvem-se promessas de Reformas Política, Econômica e Judiciária. O que nos indigna é o desinteresse, a insensibilidade e descaso de nossos políticos para com o Povo Brasileiro. Não posso crer que algum brasileiro seja contra as Copas e a construção dos Estádios construídos em tempos recordes. O que nos indigna são as ferrovias, os hospitais, as escolas, as estradas licitadas, iniciadas e abandonadas há décadas de sul a norte do rico País com milhões de indigentes, pobres e infelizes. Enquanto tivermos um brasileiro passando fome, precisando aguardar três meses para poder agendar uma consulta médica, sendo assim, obrigado a adiar a enfermidade e as dores decorrentes, seremos um País Injusto. As migalhas de Bolsas Família, Escola e agora até Copa para os mais pobres do Brasil são a maior vergonha que possa existir. Se nossos políticos conseguirem sobreviver com uma dessas Bolsas, darei o braço a torcer. Quanto se gasta numa ida ao Shopping? Tais bolsas além de não matar a fome do cidadão, não lhe permitem nem utilizar o transporte público, mensalmente. Mas tudo deve ser conquistado na Paz! Violência já é o próprio Sistema Capitalista Neoliberal Selvagem ao qual nosso povo é subjugado todos os dias!
            “A Paz! Podemos dizer que revivemos hoje, um mesmo anúncio do tempo dos profetas e do tempo dos discípulos de Jesus: o anúncio da Paz.
            A comunidade dos judeus recebe pela boca do Profeta Isaías a missão de levar ao mundo inteiro a paz, isto é, a harmonia com Deus e com todos os seres humanos. A mesma missão é confiada por Jesus aos setenta e dois discípulos. Os setenta e dois representam a assembleia guiada pelo espírito de Deus. São nossos agentes de Pastorais, Serviços e Movimentos, nossas Comunidades que vivem uma fé madura e comprometida com a vida proveniente do “sepulcro vazio” do Ressuscitado. Eles têm de sair pelos caminhos e pregar ao povo a chegada do Reino de Deus, anunciando ‘Paz a esta casa’, a esta família.
            Esta paz, que, na Bíblia, pode ser traduzida também por ‘felicidade, cidadania, dignidade’, não significa apenas silêncio das armas, ‘mas, sobretudo a harmonia com Deus e com todos os seus filhos: o bem-estar conforme o plano de Deus. É a síntese de todo o bem que se pode esperar de Deus; por isso, vai de par com o anúncio de seu Reino. Essa paz não cai como um pacote do céu, nem se faz em um só dia. É fruto da justiça (Hb 12,11; Tg 3,18). A paz cresce em meio às vicissitudes da história humana, em meio às contradições. Mas fé que fixa os olhos na paz que vem de Deus nos orienta em meio a todos os desvios. Anunciar a paz ao mundo, apesar de todos os desvios, é como as correções de rota que um avião continuamente tem de executar para não se desviar definitivamente. Jesus manda seus discípulos com a mensagem da paz, para que o mundo se anime a continuar procurando o caminho do Reino.
            ‘A Palavra proclamada neste domingo nos motiva a sonhar com um mundo de paz, a qual é como o rio que irriga a plantação. Construída pelos que se põem a serviço do reino, ela faz florir a alegria e a vida nova na sociedade que traz as marcas do sofrimento e da violência.
 Cristo venceu o mal pelo amor e nos envia como suas testemunhas. Ele nos fortalece na eucaristia para que nos gloriemos de sua cruz – da qual nasce a nova criação – e sejamos vencedores de tudo o que diminui a vida humana’ (cf. Liturgia Diária de Julho de 2013 da Paulus, pp. 30-32).
Entrando para o concreto da vida, ‘anunciar a paz de Cristo acontece não só por palavras, mas por atos. Não basta falar da paz, mas é preciso mostrar em que ela consiste, realizando atos exemplares. É preciso, também, construí-la aos poucos, pacientemente, pedra após pedra, implantando passo a passo novas estruturas, que eliminem as que são contrárias à paz. Muitas pessoas entendem paz como ‘deixar tudo em paz’. Mas a paz não é tão fácil assim! Por isso Jesus manda anunciar a paz como algo que vem juntamente com o Reino de Deus. Devemos transformar aos poucos o mundo para que este anúncio não fique uma palavra vazia” (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I de 2013 da CNBB, pp. 66-72).
Sejamos pessoas da paz, o que não significa que nos conformemos com Políticos Condenados pela Suprema Corte do País, continuarem usufruindo de “decoro parlamentar”, bem como de nossos impostos para gastarem os milhões que ganham, rindo e debochando dos que os elegeram equivocadamente um dia. Não podemos conformar-nos que os detentos gastem mais de mil reais mensais nas penitenciárias, enquanto os trabalhadores sofridos pelos (des) serviços dos Governos são obrigados a contentarem-se com R$ 680,00 mensais fora os descontos e impostos a que são obrigados. A paz se conquista com inteligência e com a força do Espírito Santo; com a unidade do povo de bem. Imaginemos deixar um dos magníficos Estádios construídos para a Copa do Mundo vazio numa Final da Copa das  Confederações? A Presidenta que já anunciou a Bolsa Copa não teria como intervir ao invés, que os comprovados corruptos e as empresas que receberam a verba e não concluíram as obras públicas como estradas, hospitais e escolas, devolvessem todo o dinheiro desviado? O dinheiro roubado, como no caso do mensalão, se não devolvido, continuará não corrigido, o que significa erro grave contra a justiça e contra cada centavo de todos os cidadãos brasileiros. Sejamos pessoas da paz, exercendo, entretanto, nossa cidadania em favor da dignidade de cada um que se digna ser chamado cristão. O Reino de Deus é um Reino de Justiça! Onde não impera a Justiça, não há Reino de Deus!
Sejam muito abençoados. Com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Padre Gilberto Kasper
(Ler Is 66,10-14; Sl 65(66); Gl 6,14-18 e Lc 10,1-12.17-20).