sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“Neste Oitavo Domingo do Tempo Comum, que neste ano antecede o início da Quaresma, ainda no contexto das bem aventuranças, o Senhor nos propõe romper com o culto ao dinheiro, que é uma idolatria, e ter confiança em Deus Pai, sempre solícito amorosamente às nossas necessidades e preocupações, para que, disponíveis, concentremos todas as energias na busca de seu Reino.
          Em quase todas as regiões do Brasil, acontecem, nestes dias, as festas de carnaval que revela a carência de festa que existe nas pessoas. Para nós, um convite a dar às nossas celebrações um sabor pascal, um clima de festa, de convívio alegre de irmãos que, na liberdade de filhos e filhas entram na intimidade amorosa do Pai.
          Neste domingo, Jesus nos pede para escolhermos entre os bens econômicos, o dinheiro e Deus. A nossa resposta fundamental ao chamado de Deus é a confiança total no Pai. Viver a justiça do reinado de Deus é deixar-se guiar pela palavra de Jesus. Ele não ensina uma vida de ‘sombra e água fresca’, mas a luta pela justiça, que é o bem para toda a humanidade e toda a criação.
          A palavra de Jesus é muito atual para esse tempo de desrespeito às matas, às águas, à natureza. Viver em concordância com as regas naturais está mais de acordo com o projeto de Deus. O que a ganância humana criou não se compara com a sabedoria da natureza, criada e mantida por Deus.
          Como mãe que jamais abandona seus filhos, Deus acompanha, abençoa e ama seu povo que sofre debaixo da ganância dos opressores. Sempre haverá uma saída, esperança de que a justiça reinará. A construção de um mundo novo, de uma sociedade na qual existam menos desigualdades é possível e o dia de amanhã não custará preocupações, mas haverá possibilidades e alternativas de a humanidade se aproximar da vida sábia das aves e dos lírios, mantendo confiança ilimitada em nosso Deus e Pai. A justiça torna-se sinônimo de amor misericordioso, de solidariedade fraterna, de perdão reconciliador, de igualdade respeitosa.
          Quem vive calculando como ganhar e enriquecer mais não pode viver confiante na generosidade e cuidado de Deus. A confiança na providência divina não é alienante, mas libertadora e formadora de uma solidariedade comprometida especialmente com os mais necessitados. Quanto maior a confiança, maior a responsabilidade e o engajamento na luta contra o consumismo, a submissão ao mercado e o endeusamento das coisas materiais.
          O que sustenta nossa confiança é a certeza da fidelidade de Deus à sua aliança.
          Na próxima quarta-feira, iniciamos, com a celebração de bênção e a imposição das cinzas, o santo tempo da Quaresma, preparando-nos, mais intensamente, pela escuta da Palavra e prática da oração para a celebração festiva da Páscoa (cf. SC, n. 109). A Campanha da Fraternidade, que realizamos neste período, ilumina de modo particular os gestos fundamentais desse tempo litúrgico: a oração, o jejum e a misericórdia. Neste ano, o tema da Campanha é: ‘Fraternidade e Tráfico Humano’ e o lema: É para a liberdade que Cristo nos libertou’(cf. Gl 5,1).
          Experimentamos a presença viva do Senhor na reunião de irmãos e na Palavra proclamada, saciando nossa fome e sede de justiça.
          Nossa participação na Eucaristia manifesta nossa confiança em estabelecer com o Pai uma aliança de amor e compromisso, fazendo uma escolha irrestrita por seu Reino. A Eucaristia nos impõe a opção radical por ele” (cf. Roteiros Homiléticos de Março de 2014 da CNBB, pp. 114-118).
          O Evangelho deste domingo é belíssimo pelas duas comparações que o Senhor faz com a pessoa: os pássaros que não semeiam, nem colhem nem ajuntam em armazéns. Mesmo assim o Pai os alimenta, gratuitamente; os lírios que crescem no campo: não trabalham nem fiam, no entanto Deus os veste, mais suntuosamente do que o rei Salomão, também gratuitamente. Assim nos convida a renovarmos nossa maior confiança em Deus para nossas necessidades. Mas essa confiança implica num exercício: buscar em primeiro lugar o Reino de Deus! Todo resto Deus proverá!
          O Reino de Deus é um Reino de Justiça, perdão, partilha e misericórdia! Muitas pessoas, mesmo confiando em Deus, são privadas do necessário para uma vida digna! Alguém os vitima a isso: o desemprego, a falta de moradia, a saúde em crise, a economia avassaladora de impostos absurdos, a insensibilidade com os mais pobres, que não poucas vezes são tratados como “coisinhas difíceis e feias de serem ajudadas”.
          O Papa Francisco, conforme José Marins vem insistindo: ‘Temos que sair às periferias. Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e manchada por sair à rua, que uma Igreja doente por se fechar e pela comodidade de se agarrar às suas próprias seguranças’. Uma Igreja assim não confia em Deus, mas em si mesma apenas! “Não quero uma Igreja preocupada por ser o centro e que acaba enclausurada num emaranhado de obsessões e procedimentos... Não podemos ficar tranqüilos na espera dos nossos templos. Os Evangelhos convidam-nos sempre a correr o risco do encontro com o rosto do outro”.
          O Papa quer introduzir na Igreja o que ele chama “a cultura do encontro” e “da proximidade”. Está convencido de que “o que necessita hoje a Igreja é a capacidade de curar as feridas e dar calor aos corações para ajudar-se reciprocamente”. A meta da evangelização é o Reino, a vida plena de todos e para todos!
          Sejam todos muito abençoados. Com ternura e gratidão, meu abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Is 49,14-15; Sl 61(62); 1 Cor 4,1-5 e Mt 6,24-34).
         



sábado, 22 de fevereiro de 2014

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!


          “Em Jesus, o Pai nos oferece sua compaixão, dando-nos seu perdão, a força da reconciliação que nos leva ao amor incondicional e guia-nos no caminho da concórdia e da justiça.
          Neste Sétimo Domingo do Tempo Comum, a primeira leitura ajuda a iluminar o evangelho proclamado. O Levítico nos fala da necessidade de sermos santos, porque Deus á santo. A santidade que Deus exige de nós, não se reduz a práticas externas da religião, mas ao amor sem limites. Pela Aliança, os israelitas são de Deus. Pelo Batismo, os cristãos são de Deus. Aqueles que formam o ‘povo de Deus’ não podem desonrar esse nome, mas assemelhar-se a ele que é amor e perdão, como nos diz o livro do Êxodo 34,6-7: ‘O Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias e pecados...’ Por isso, é necessário que sejamos irrepreensíveis.
          Jesus, como filho amado do Pai, compreendendo e vivendo a pertença plena de Deus, explica e exige a santidade de seus seguidores. Portanto, não se trata de ser pretensioso querer ser santo. Antes se trata de uma exigência interna de todo batizado. O batismo nos torna seres divinizados, ou seja, candidatos à santidade. E santo é todo aquele que morrendo vê Deus como Deus é, e pronto!
          A caridade fraterna, o amor aos inimigos devem ser as características de quem segue Jesus, o Cristo. No seguimento do Senhor, não cabem ódio, vingança, egoísmo, injustiças, violências, guerras, comércio de armas, competições, incompreensões, divisões. Entretanto, no mundo, vemos acontecer tudo isso entre nações, grupos, pessoas. Até entre igrejas e dentro das igrejas existem diversos tipos de inimizades, competições, exploração de pobres e pequenos. Muitos de nós agimos como se fôssemos deuses diante de nosso próximo. Rezamos ingenuamente sem pensar nas conseqüências: ‘perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todo aquele que nos deve’ (Lc 11,4). Coitados de nós, se Deus ouvisse esse pedido da Oração do Pai Nosso que tanto rezamos com os lábios, mas não com o coração! Rezar o que não se deseja realmente é mera hipocrisia!
          O sinal de que somos seguidores de Cristo crucificado e ressuscitado é o amor sem medidas.
          ‘Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros’ (Jo 13,34-35).
          A medida de nosso amor para com o próximo é, pois, o amor que Cristo tem por nós, a ponto de entregar sua vida. Mais ainda, a medida é o amor que o Pai tem por Cristo: ‘Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo’ (Jo 15,9). O amor ao próximo está indissoluvelmente ligado ao preceito do amor a Deus.
          Realizamos nossa vocação de sermos semelhantes ao nosso Deus, quando amamos todas as pessoas com o amor gratuito de Deus, sem busca de retribuição. Por esta razão, nosso empenho maior é amar os pobres, os estranhos, os diferentes e, o mais difícil, amar os inimigos.
          Como santuário de Deus, habitação do Espírito, rompendo com ressentimentos, diferenças e preconceitos, a assembléia litúrgica torna-se sacramento do amor de Deus entre nós.
          Num mundo de discriminação, ódio e violência, a mesa da ceia eucarística sinaliza profeticamente a reconciliação e a comunhão universal. Nela recebemos o Espírito de santidade que, com Cristo, nos faz perfeita oferenda ao Pai, vida doada incondicionalmente para a salvação do mundo, cujo penhor recebemos neste sacramento’.
          O pão partido e partilhado, participando na igualdade de irmãos, nos mantém no caminho da santidade e cultiva, em nós, a atitude fundamental de discípulos daquele que, na cruz, chegou à radicalidade do amor sem limites” (cf. Roteiros Homiléticos  de Fevereiro de 2014 da CNBB, pp. 109-113).
          Depois de comungarmos a Palavra deste Sétimo Domingo do Tempo Comum é impossível guardar no coração alguma forma de rancor, ingratidão, incapacidade de perdão em relação a quem quer que seja. Não percamos tempo. Se tivermos guardado nos porões de nossa intimidade qualquer sentimento que não coincida com o amor gratuito, corramos ao encontro de quem “desamamos” e celebremos a reconciliação. Só assim teremos de volta a paz que o pecado nos rouba. Só assim poderemos dizer que realmente somos cristãos e dignos deste nome. Mágoa, insensibilidade com as fraquezas dos outros e indiferença com quem sofre, não combinam com um cristão que se alimenta do Cristo Sacramentado. Ou nos tornamos o sacrário do Senhor, ou estaremos vazios dele, o que seria desastroso. Não canso de dizer, que o mais nobre e lindo no cristão é esforçar-se que sejamos Anjos uns para os outros!
          Sejam sempre e muito abençoados. Com ternura e gratidão, o abraço,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Lv 19,1-2.17-18; Sl 102(103); 1 Cor 3,16-23 e Mt 5,38-48).


sábado, 15 de fevereiro de 2014

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem.
Ele conhece todas as obras do homem” (Eclo 15,20).

          “No Sexto Domingo do Tempo Comum a Palavra de Deus nos ilumina sobre a relação de Jesus e a lei. Sua missão não é abolir nem facilitar, mas libertar do formalismo e do fundamentalismo. Para Jesus, não basta a observância externa apenas para ‘ir para o céu’ após a morte. Jesus exige radicalidade. A Palavra de Deus deve atingir até o mais profundo do ser humano. É uma procura amorosa da vontade original de Deus que ultrapassa a simples letra da lei. É necessário ver e ouvir por ‘trás das palavras’, encontrando-se pessoalmente com o Espírito da Lei.
          Para o cristão ser justo, conforme a exigência de Jesus, não basta observar preceitos, cumprir mandamentos, é necessário viver e realizar o bem proposto por Deus em sua Palavra. A letra da lei mata, mas o Espírito vivifica. Conforme o Salmo 119 (118), a lei é uma luz, um caminho, razão de viver e se sentir interiormente como povo escolhido de Deus. A lei foi dada para podermos viver e testemunhar o bem que Deus propõe.
          Jesus nos alerta que podemos observar a lei em outro espírito, que não seja o Espírito de Deus. O espírito que motivava os fariseus da época se afastava do projeto do Pai, porque não beneficiava os pobres e pequeninos. Não era espírito de Deus, mas um negócio com Deus, troca, barganha. Os fariseus tornaram-se donos da lei e ela passou a ser instrumento de dominação econômica, política e religiosa sobre os demais: ‘Amarram pesados fardos e impõem-nos aos ombros dos irmãos, ao passo que eles mesmos se negam a movê-los com o dedo’ (cf. Mt 23,4) Jesus, então, deseja tirar a lei das mãos de quem oprime em nome de sua observância e devolvê-la a Deus. O que Deus deseja é a justiça, seu plano amoroso. Procurar a justiça verdadeira é olhar a vida com amor radical. Então os mandamentos de Deus significarão muito mais do que a letra diz, e nos levarão à perfeição de filhas e filhos de Deus.
          Cumprir toda justiça é a justiça que inclui lei e profetas. O essencial da lei é a prática da justiça e da misericórdia que ultrapassam a observância legalista. Jesus toma alguns exemplos para deixar claro até onde devem ir a justiça e a misericórdia. Vai até a raiz e mostra que o objetivo da lei é a defesa da vida. Não basta ‘não matar’, é necessário construir uma sociedade humana, fraterna e solidária, na qual a vida plena seja para todos. A lei é ‘não cometer adultério’, mas não; é preciso eliminar o desejo de posse sobre a mulher, extinguir todo machismo e todos os privilégios do homem, raiz de toda opressão presente nas relações humanas. O bem-querer é a proposta de Deus. Nossa resposta é um amor verdadeiro, com raiz na totalidade da pessoa, o qual se insere na fonte do amor que é o próprio Deus. Não basta ‘não jurar em falso’; temos que promover a convivência fundamental na verdade, na integridade, na honestidade, na ética.
          O que a Palavra de Deus exige hoje de nós é cortar o mal pela raiz. Jesus não nos prescreve apenas normas, mas uma proposta evangélica nova que batize, lave até nosso inconsciente, nossa consciência profunda, e faça da vida um contínuo ato de discernimento, de busca de sentido de nosso ser, de nosso viver, do nosso agir. A primeira leitura nos convida, a cada momento, a tomar uma posição diante da LEI, o projeto de Deus(cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum de Fevereiro de 2014 da CNBB, pp.103-108).
          Somos convidados a uma profunda conversão em todas as dimensões de nossas relações humanas. Na dimensão familiar, evitando acepções e discriminações. Na dimensão política não poucas vezes a lei é aplicada com maior rigor aos adversários políticos e relaxada aos correligionários, o que é profundamente injusto. A lei deveria ser aplicada de igual modo a todos, já que todos deveriam ser tratados com igual cidadania. Na dimensão social o jogo de interesses determina a lei, quando não a “Cultura do Descartável”. Quantas pessoas conhecemos, que só sobrevivem à custa do dinheiro, do prestígio, do poder, da ganância e da avareza? Na dimensão religiosa também carecemos de séria conversão pastoral. Nossas normas pastorais nem sempre são acolhedoras; mais espantam do que acolhem os filhos da Igreja. Não se trata de “banalizar” a pastoral, mas também não dificultar a vida dos que nos buscam sendo-lhes um peso sobre os ombros. As secretarias paroquiais geralmente só dão expediente em horário comercial, quando as pessoas trabalham. Se a Igreja é Mãe, seus filhos deveriam encontrá-la sem que isso prejudique sua sobrevivência. Gosto de pensar, que a Igreja deve sempre edificar e nunca dificultar a vida de seus filhos nas dimensões: pessoal, familiar, profissional e social. Muitas vezes somos mais exigentes com nossos Agentes de Pastoral, do que foram os fariseus do tempo de Jesus. Fazê-los nossos “funcionários” e exigir que deixem o convívio da família não me parece o projeto de quem diz amar seu rebanho. Como seria bom, se todos nos  propuséssemos a uma verdadeira e profunda conversão, deixando a última palavra para o amor totalmente gratuito. Se nem Deus impõe nada, apenas propõe, quem somos nós para exigências tantas vezes absurdas, que demonstram nossa incapacidade de conduzir as pessoas a Jesus Cristo livremente? Sejamos humildes e nos esforcemos por maior criatividade e, sobretudo coerência entre o que pregamos e vivemos!
          Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper

(Ler Eclo 15,16-21; Sl 118(119); 1 Cor 2,6-10 e Mt 5,17-37).

sábado, 8 de fevereiro de 2014

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM



Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Uma luz brilha nas trevas para o justo,
permanece para sempre o bem que fez” (Sl 111).

            “No Quinto Domingo do Tempo Comum fazemos memória de Jesus, o bem-aventurado do Pai, que deu a vida pela humanidade. Manifesta-se como luz do mundo e presenteia-nos com o novo sabor e o suave vigor de seu Espírito.
          No contexto das bem-aventuranças, o Senhor nos renova na missão de ser sal da terra e luz do mundo. Ele nos convida a ‘provar’, como cristãos, a qualidade de nosso sal e a ver com que obstáculos ocultamos a luz do evangelho, numa Igreja e numa sociedade de tanta desigualdade, competição, discórdia, corrupção e miséria.
          Se lermos atentamente a Carta Encíclica do Sumo Pontífice FRANCISCO Lumen Fidei – sobre a fé e sua primeira Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – Alegria do Evangelho sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, chegaremos à conclusão de que só conseguiremos experimentar ‘A doce e reconfortante alegria de evangelizar’, na medida em que nos tornarmos ‘Uma Igreja em saída’ e acolhermos com humildade a proposta de uma profunda ‘Pastoral de conversão’ (cf. Capítulo I da Evangelii Gaudium, nn. 19-49). Tanto a Igreja como a sociedade precisa, urgentemente, pensar como superar tanta desigualdade, intriga, inveja, busca de poder e prestígio. A impressão que fica, é que o melhor clérigo é o que constrói a Igreja maior e mais suntuosa. Mesmo que não encontre tempo para administrar os sacramentos da Reconciliação, da Unção dos Enfermos e não goste de ir a velórios. Como é possível falar em Alegria do Evangelho, quando em nossas relações vivemos exatamente o contrário? Como podemos falar numa ‘Igreja pobre para os pobres’, quando entre nós ministros ordenados, há os que ostentam luxo exacerbado ao lado de outros tantos passando necessidades básicas, sem dinheiro para um justo tratamento de saúde? Já ouvi de lábios sacerdotais, que os Padres pobres não são criativos e não se esforçam por angariar fundos para a manutenção de suas Comunidades, principalmente as de periferias de nossas Dioceses. Será assim? Como seríamos mais configurados com uma Igreja desejada pelo Santo Padre FRANCISCO, se fôssemos menos avarentos e mais fraternos uns com os outros. Não seria lindo que as Paróquias ricas doassem de coração aberto, uma espécie de dízimo às que são pobrezinhas? Se dessem pelo menos 1% de suas arrecadações mensais, para aliviar as dificuldades das Comunidades carentes, teriam os outros 99% para realizar suas atividades e não teríamos o que me parece vergonhoso, irmãos indigentes entre nós. Voltaríamos às Comunidades dos Apóstolos, onde todos repartiam o pão, e não havia necessitados entre eles!
          Cristo é luz do mundo! (cf. Jo 8,12) Quem o segue não andará nas trevas! Será luz também! – essa é nossa missão no mundo! Deus será reconhecido através das boas obras de seus filhos e filhas. Não posso crer que Deus seja mais feliz quanto maior forem as torres de nossos Templos. Mas se os ‘Templos Humanos’ estiverem saudáveis e viverem com dignidade com nossa promoção e nosso investimento nas pessoas, antes das obras de concreto, Deus será tão feliz conosco, que a Alegria do Evangelho transformará a vida toda de toda a Igreja e de toda a sociedade! Aí, porém, surge o perigo da vaidade, da sede de sucesso, de ofuscar a luz de Deus pelo engano de achar que temos luz própria. Uma luz boa não ofusca, mas ilumina.
          Hoje existem muito brilho e excesso das luzes do luxo e do esbanjamento, da erudição para enganar, roubar, corromper; muita esperteza para prejudicar os outros e se manter na acumulação, na riqueza e no poder social, ideológico, político, eclesial e econômico. Esses se colocam no lugar de Deus. Infelizes os que vivem olhando para esse lado. Ficarão cegos. Essa luz ofusca a visão.
          O cristão é sal. A vivência do evangelho dá ‘sabor’ à vida, ilumina tudo o que acontece, leva à ação. Com sua presença, o cristão é desafiado a impelir que a humanidade se corrompa. Num mundo onde cada qual procura o próprio interesse, o cristão é chamado a ser o sal que dá sabor e que conserva a força do evangelho.
          Jesus diz que somos sal e luz para o mundo, se seguirmos suas pegadas, se formos verdadeiros discípulos, anunciando a Alegria do Evangelho com a própria vida, diariamente!
          Ser luz do mundo significa trabalhar para que o Reino de Deus aconteça. Será que nós, cristãos, somos realmente luz do mundo? (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum de 2014 da CNBB, pp. 97-102).
          Que esta Quinta Semana do Tempo Comum nos anime a sermos luz, dando nova cor; sal, dando novo sabor ao mundo em que nos movemos e vivemos: em nossas relações pessoais com Deus, com os irmãos e com a sociedade, especialmente em nossas relações nas Comunidades Cristãs! Isso poderá queimar-nos ou até machucar-nos. Mas com São Paulo, deixemo-nos derreter como o ouro no cadinho, a fim de que o Senhor faça de nossa vida, uma vida de verdadeiros discípulos e missionários de Jesus. Não tenhamos medo de derretermos, como a vela derrete acesa no altar, desde que sejamos luz que verdadeiramente ilumine a vida de todos, por quem somos responsáveis!  Sejamos sal que tempere a vida, especialmente, dos que se sentem destemperados neste mundo que ainda opta pela Cultura do Descartável”! Só assim seremos configurados com Jesus Cristo, luz do mundo e sal da terra!
          Sejam todos muito e sempre abençoados. Com ternura e gratidão, meu abraço amigo e fiel,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Is 58,7-10; Sl 111(112); 1Cor 2,1-5 e Mt 5,13-16).
         


domingo, 2 de fevereiro de 2014

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM
FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Meus olhos viram o Salvador que preparastes,
ó Deus, para todos os povos” (Lc 2,30s).

          “No Quarto Domingo do Tempo Comum, quarenta dias depois do Natal, celebramos o mistério da Apresentação de Jesus no Templo, nos braços de Maria e José. Esta festa situa-se ainda no contexto do Natal, apresentando outro aspecto da manifestação do Senhor: humano como nós, nasce de uma mulher e submisso às tradições da lei.
          Esta festa já era celebrada nos finais do século IV, em Jerusalém, e, mais tarde, foi assumida por toda a Igreja. No século V, com inspiração no cântico de Simeão, eram usadas tochas, tornando a celebração mais expressiva: Celebremos o mistério deste dia com lâmpadas flamejantes, dizia São Cirilo de Alexandria (+ 444). O Missal atual conserva, com este sentido, o rito inicial da bênção das velas.
          Com a reforma do Concílio Ecumênico Vaticano II, a festa que, por muito tempo tinha o título de ‘Purificação da Bem aventurada Virgem Maria’, em conformidade com a prescrição da lei judaica de os pais apresentarem o filho recém-nascido, quarenta dias após o nascimento, e da purificação de sua mãe, foi mudado para a Apresentação do Senhor. Fica assim mais evidente que se trata de uma festa do Senhor, cujo mistério se inscreve na dinâmica da Páscoa.
          Contudo, entre nós esta festa mantém ainda um acentuado caráter mariano, recebendo vários títulos, como: Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Luz, Candelária, Nossa Senhora de Belém.
          A festa da Apresentação do Senhor enche-nos novamente do espírito natalino. O conjunto desta festa é de alegria, mesmo que uma espada paire sobre a vida de Maria. É festa de pureza e de luz. É festa que une o início e a plenitude da vida humana. Festa da família, na qual se reúnem crianças, jovens, adultos e idosos, cada um com sua preciosa contribuição para que se realize o projeto de Deus na humanidade. Ao mesmo tempo, é festa que evoca o mistério de Deus encarnado em Jesus de Nazaré.
          Ao nascer, Jesus se manifestou, em primeiro lugar, aos pastores, que eram pobres e excluídos. Agora, ao ser apresentado no Templo, revela-se, em primeiro lugar, não aos levitas nem aos sacerdotes que executaram os ritos da purificação de Maria e do resgate do Menino, mas a dois ‘pobres de Deus’, os anciãos Ana e Simeão. Os dois pertenciam aos círculos dos anawim e esperavam a libertação de Israel. O lugar da nova revelação messiânica não é o campo aberto, a manjedoura, entre trabalhadores pobres, mais é o Templo.
          O nome ‘Simeão’ significa ‘escutador’, aquele que vive atentamente à escuta dos sinais dos tempos, dos acontecimentos como Palavra viva de Deus. É idoso justo, piedoso e esperançoso pela consolação de Israel. Vivia à espera e à escuta. Foi ao Templo, e, ao ver aquele Menino, pegou-o nos braços: por isso, os padres gregos dão a Simeão o título de Theodóchos = recebedor de Deus.
          Também Ana, profetisa, uma velhinha que andava sintonizada em onda curta com a Palavra de Deus, chegou carregada de esperança. Ana, significa ‘graça’. Tanta intimidade com Deus! Também a profetisa Ana, serena e feliz, viu aquele Menino. Diz o evangelho que se pôs a falar dele a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém!
          Hoje, onde encontramos Ana e Simeão? Em nossos Templos? Em nossas famílias? Na sociedade? Como os ouvimos? Que lugar ocupam neste mundo da globalização do bem estar e da beleza?
          Com nossas velas acesas, entramos no mistério de Cristo, deixando-nos iluminar por ele, luz do mundo. Maria, com seu silêncio e meditação, nos ensina como acolhê-lo, reconhecê-lo e oferecê-lo” (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum de 2014 da CNBB, pp. 89-96).
          Gosto do silêncio: em minha vida pessoal, passando bom tempo durante o dia, meditando em silêncio. Gosto do silêncio nas celebrações: procuro cultivar vários momentos de silêncio, especialmente durante a Celebração Eucarística. Penso sempre que “Deus é de longos silêncios e raras palavras!”. Não corramos o risco de, num mundo tão barulhento, deixarmos de ouvir o que Deus tem a nos dizer, ao ouvido de nosso coração. Certamente nos pedirá que, acesos em Jesus Cristo, sejamos luz e seta para a humanidade!
          Sejam todos muito abençoados. Com ternura e gratidão, meu abraço,
Pe. Gilberto Kasper

(Ler Ml 3,1-4; Sl 23(24); Hb 2,14-18 e Lc 2,22-40).